sábado, 25 de junho de 2011

o tempo, subitamente solto

o tempo
 subitamente solto
 pelas ruas e pelos dias
como a onda de uma tempestade
 a arrastar o mundo
mostra-me o quanto te amei
 antes de te conhecer.
eram os teus olhos
 labirintos de água
 terra, fogo, ar
que eu amava
 quando imaginava
 que amava.
era a tua, a tua voz
que dizia as palavras da vida.
 era o teu rosto.
 era a tua pele.
 antes de te conhecer
 existias nas árvores
 e nos montes e nas nuvens
 que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim
 dentro de mim
 eras tu a claridade.

[José Luís Peixoto]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

o que vamos fazer amanhã (lamento por diotima)

o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem

num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

[Vasco Graça Moura]

Profundamente...


Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

 Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
…Profundamente.

[Manuel  Bandeira]

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Oração de Todas as Horas

Agora
que eu já não sei andar nas trevas
não me roubes a Tua Mão, Senhor
por piedade!
Voltar às trevas não sei
e sem a Tua Mão não poderei
dar um só passo em tanta Claridade.

Pelas Tuas feridas minhas, pelas tristezas
de Tua Mãe, Jesus.
não me deixes, no meio desta Luz
de pernas presas...

Não me deixes ficar
com o Caminho todo iluminado
e eu parado e tão cansado
como se fosse a andar ...

[Sebastião da Gama]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dizem que a paixão o conheceu



dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

[Al Berto]