quinta-feira, 7 de julho de 2011

Caranguejola

Vincent Van Gogh

 
Ah, que me metam entre cobertores
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira ...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais, não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza....

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co’a breca! levem-me prá enfermaria!
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

[Mário de Sá-Carneiro]

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Poema numa esquina de Paris

Tânia Paupitz

 
“Dezenas e dezenas de pessoas passam ininterruptamente ao longo do passeio.”


Umas para lá.
Outras para cá.
Umas para cá.
Outras para lá.
Mas cada uma que passa
tem de fazer na esquina um pequeno rodeio
para não se esbarrar com o par que aí se abraça.
Olhos cerrados, lábios juntos e ardentes
tentam matar a inesgotável sede.
Através dos seus corpos transparentes
lê-se na esquina da parede:

“Dans Cette Place a été Tué
Maurice  Dupré
Héros de la Resistance.
VIVE LA FRANCE.”


[António Gedeão]

terça-feira, 5 de julho de 2011

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio

Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros

O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte
o vazio rodopia, é o celeste inferno.

Desço ainda um degrau com o anjo infernal
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?

[António Ramos Rosa]