sábado, 16 de julho de 2011

Um Rosto

Apenas uma coisa inteiramente transparente:
o céu e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda através de pálpebras
 semicerradas, pestanas húmidas da geada matinal
 uma névoa de palavras murmuradas num silêncio de hesitações.
Há quanto tempo, tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos, limpo os papéis
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim
 fotografias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições
 e sinto eu próprio, que uma parte da minha vida
 se apaga com esses restos.

[Nuno Júdice]

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pedras Antárticas

Ali termina tudo
e não termina
ali começa tudo
despedem-se os rios no gelo
o ar  casado com a neve
não há ruas nem cavalos
e o único edifício
o construiu a pedra.
Ninguém habita o castelo
nem as almas perdidas
que frio e vento frio
amedrontaram
é sozinha ali a solidão do mundo
e por isso a pedra
se fez música
elevou suas delgadas estaturas
se levantou para gritar ou cantar
porém ficou muda.
Só o vento
o açoite
do Pólo Sul que assobia
só o vazio branco
e um som de pássaro de chuva
sobre o castelo da solidão.

[Pablo Neruda]

Poema do fecho-éclair

Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro
com fivela de oiro
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás
com panos por cima
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos
combates de galos
alões e podengos
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.

Na mesa do canto
vermelho damasco
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra
foi senhor do Mundo
nada lhe faltava
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata
pedras nunca vistas
safiras, topázios
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta
bragas de veludo
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho-éclair.

[António Gedeâo]

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Infinito


Comprazemo-nos
trajando adolescências
abafando o som dos risos
quando nos espreitamos à socapa
pela cortina que afastamos
na janela dos nossos dedos.

Deleitosa esta espécie de olhar de garotos
nesta ciranda em que dançamos
visualizando-nos tão bem
que nos tocamos.
Fundamental saber o que amamos tanto
com as mãos do imaginário
com os olhos rasos de mil pedaços
nesta imagem de estarmos juntos.
Relevante que nos emocionemos
ao experimentar com análoga intensidade
desenlear do tempo comum
o tempo só nosso.
Singular a carência de cruzarmos silêncios
de não nos deixarmos concluir
numa interrupção atabalhoada
própria do desejo de nos mantermos conspirados.

Temos ainda tanto para trocar entre nós.
Temos um mundo próprio
esta paisagem pré concebida,
grafitada num muro de uma avenida qualquer
só pelo prazer de nos vermos
quando por ela nos circulamos.

Importa o resto?
Claro que não!
Importa que continuemos a compartir silêncios ilimitados.
Enquanto continuarmos nesta permuta
Importam-nos sim
as frases
imagens nossas que prendemos na lapela
condecorações deste bem-estar que cogitámos:
Falta um infinito imenso!
Falta o inimaginável para que nos dissipemos!

[Cristina Miranda]