sexta-feira, 19 de agosto de 2011

POEMA

Noite. Fundura. A treva
É mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...

[Pedro Homem de Mello]

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Parabéns Querida Mãe


Quem diria que no dia de hoje não te fui ver á tua última morada.Era impensável, há um ano atrás isto acontecer … Maldito cancro que não me deixa respirar e que até as forças me tira, para nem sequer um ramo de flores colocar na campa da minha Mãe. Farias, hoje 82 anos, vivo da tua recordação, ouço quando me dizias “António deixa de fumar, porque um dia vais precisar tanto da saúde e não a vais ter e vais arrepender-te tanto e dizer “a Minha Mãe tinha tanta  razão”.  A minha família eras tu Mãe e peço a Deus que ao menos me dê um milésimo da tua força, para ver se consigo chegar ao fim.

“Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos o chamamento da água
o chamamento sibilino que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz de me resgatar e que dentro
dele se perfilem as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida das camas.(…)”

[José Jorge Letria]

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia
 e não sei se foi amor.
Certo rumor de cálices
 uma súplica ao dealbar das ruínas
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda
 a lembrança do sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada
 dos passos em que me entristeço
 a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia
 as tuas rosas floriam no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios  a profanação do jasmim
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes  e morre.
Esta música é quase o vento.

[José Agostinho Baptista]

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

COMEÇO A CONHECER-ME. NÃO EXISTO.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram
Ou metade desse intervalo, porque também há vida …
Sou isso, enfim … 
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. 
É um universo barato.

[Álvaro de Campos]

domingo, 14 de agosto de 2011

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS

Entre a guerra e a paz - Aguarela acrílica de Dina de Souza

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

[Sophia de Mello Breyner Andresen]