sexta-feira, 29 de julho de 2011

Canção do lavrador


Vincent Van Gogh - Semeador

Meus versos lavro-os ao rubro
nesta página de terra que abro em lábios.
 Descubro-lhe a voz que no fundo encerra

Os versos que faço sou-os
a relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos de voos
que eu tinha à terra ferida

Poema que mais que escrevo
devo-te em vida.
No húmus a rego simples eu levo
os meus desvairados rumos

Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas, lavra

[Ruy Belo]

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Do mar

Aqueles de um país costeiro
 há séculos, contêm no tórax
 a grandeza sonora das marés vivas.
Em simples forma de barco
as palmas das mãos.
 Os cabelos são banais
como algas finas.
 O mar está em suas vidas
 de tal modo que os embebe
 dos vapores do sal.

Não é fácil amá-los
de um amor igual à
benignidade do mar.


[Fiama Hasse Pais Brandão]

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Todo o Sentimento

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desenvencilhar da gente.

Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

[Chico Buarque]