sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O amor é o amor …e depois?

O amor é o amor …e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos, somos um? somos dois? -
espírito e calor!

O amor é o amor…e depois?


[Alexandre O'Neill]

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Espírito que passas

Espírito que passas, quando o vento
adormece no mar e surge a Lua
Filho esquivo da noite que flutua
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo, triste e lento
Que voga e subtilmente se insinua
Sobre o meu coração, que tumultua
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva
Buscando, entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome
A febre de Ideal, que me consome
Tu só, Génio da Noite…  e mais ninguém!

[Antero de Quental]

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Mistério

Gosto de ti, oh chuva nos beirados
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende
Frases que a nossa boca não aprende
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério
O meu corpo matar a fome às rosas!

[Florbela Espanca]

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Já lentamente sofro a tua água, o sopro

Já lentamente sofro a tua água
 o sopro da memória nas colinas.
deste-me um corpo
 a casa onde acordar, o vento  e a terra
 e a paz desconhecida.
Nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã, nas mãos desertas.
A cada instante me devora o gume
embotado da tua luz sonora.

afasta do meu rosto
 a tua vã promessa.
Deixa que seja brando
 o sono sem lembrança
 um chão de terra nua.
Do teu jardim de chamas
… me despeço.

[António Franco Alexandre]

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Maria Campaniça

Debaixo do lenço azul
 com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto
mas o jeito das mãos
 torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!

[Manuel da Fonseca]

domingo, 7 de agosto de 2011

A infância de Herberto Hélder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo
 agora acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos, acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso, foi antes
de aprender a álgebra

[Herberto Hélder]

sábado, 6 de agosto de 2011

A minha camisa rôta

A minha camisa rôta
(Pois não tenho quem me a cosa)
É parte minha na rota
Que vai para qualquer cousa
Pois o estar rôta denota
Que a minha atenção valiosa
Para outros cimos se volta.
Mas sei que isto é nada
Que a miséria não é mal
E que a camisa rasgada
Não me traz a alma enganada
Em busca do Santo Graal

[Fernando Pessoa]