segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Faz-me o favor...

Mário Cesariny(óleo sobre papel)”O surrealismo, 1959”

Faz-me o favor
de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor , muito melhor!
Do que tu. Não digas nada.
Sê alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

[Mário Cesariny]

domingo, 21 de agosto de 2011

Bolor

Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor nas paredes
deste quarto deserto
o orvalho da amargura
na flor de cada sonho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste amor.

[Carlos de Oliveira]

sábado, 20 de agosto de 2011

A minha sombra sou eu

A minha sombra sou eu
ela não me segue
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.

Sombra de mim que recebo a luz
sombra atrelada ao que eu nasci
distância imutável da minha sombra a mim
toco-me e não me atinjo
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.

Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.

Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida
sempre lá, sempre às portas de mim!


[José de Almada Negreiros]

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

POEMA

Noite. Fundura. A treva
É mais doce talvez...
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido...

[Pedro Homem de Mello]

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Parabéns Querida Mãe


Quem diria que no dia de hoje não te fui ver á tua última morada.Era impensável, há um ano atrás isto acontecer … Maldito cancro que não me deixa respirar e que até as forças me tira, para nem sequer um ramo de flores colocar na campa da minha Mãe. Farias, hoje 82 anos, vivo da tua recordação, ouço quando me dizias “António deixa de fumar, porque um dia vais precisar tanto da saúde e não a vais ter e vais arrepender-te tanto e dizer “a Minha Mãe tinha tanta  razão”.  A minha família eras tu Mãe e peço a Deus que ao menos me dê um milésimo da tua força, para ver se consigo chegar ao fim.

“Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos o chamamento da água
o chamamento sibilino que se confunde com o ranger das portas das casas
onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz de me resgatar e que dentro
dele se perfilem as sombras e os gestos, exército dos meus medos
mais secretos, temores enrodilhados na roupa húmida das camas.(…)”

[José Jorge Letria]