domingo, 28 de agosto de 2011

Canção

Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
 De conquistar a verdade
 Nos movimentos de um beijo
 Pelos que arderam na chama
 Da ilusão de vencer
 E ficaram nas ruínas
 Do seu falhado heroísmo
 Tentando ainda viver!

 Pela ambição que perturba
 E arrasta os homens à Guerra
 De resultados fatais!
 Pelas lágrimas serenas
 Dos que não podem sorrir
 E resignados, suicidam
 Seus humaníssimos ais!

 Pelo mistério subtil
 Imponderável, divino
 De um silêncio, de uma flor!
Pela beleza que eu amo
 E o meu olhar adivinha
 Por tudo que a vida encerra
 E a morte sabe guardar
 Bendito seja o destino
 Que Deus tem para nos dar!

[António Botto]

Balanço

Afinal, toda a minha poesia era verdade...
A noite é infindável  e os dias
são a mesma vastidão de carne apodrecida
morrendo sem saber de que morria.
Os rios são os mesmos, ou as ruas
que só levam lá de onde não saí.
O silêncio é sempre a única resposta.

Se não pedi, que haviam de me dar?

[Adolfo Casais Monteiro]

sábado, 27 de agosto de 2011

JARDIM PERDIDO

Jardim perdido, a grande maravilha
Pela qual eternamente em mim
A tua face se ergue e brilha
Foi esse teu poder de não ter fim
Nem tempo, nem lugar e não ter nome.

Sempre me abandonaste à beira duma fome.
As coisas nas tuas linhas oferecidas
Sempre ao meu encontro vieram já perdidas

Em cada um dos teus gestos sonhava
Um caminho de estranhas perspectivas
E cada flor no vento desdobrava
Um tumulto de danças fugitivas.

Os sons, os gestos, os motivos humanos
Passaram em redor sem te tocar
E só os deuses vieram habitar
No vazio infinito dos teus planos

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Álcool



Guilhotinas, pelouros e castelos

Resvalam longamente em procissão

Volteiam-me crepúsculos amarelos

Mordidos, doentios de roxidão.



Batem asas d' auréola aos meus ouvidos

Grifam-me sons de côr e de perfumes

Ferem-me os olhos turbilhões de gumes

Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.



Respiro-me no ar que ao longe vem

Da luz que me ilumina participo

Quero reunir-me  e todo me dissipo

Luto, estrebucho... Em vão! Silvo para além...



Corro em volta de mim sem me encontrar...

Tudo oscila e se abate como espuma...

Um disco de ouro surge a voltear...

Fecho os meus olhos com pavor da bruma...



Que droga foi a que me inoculei?

Ópio d' inferno em vez de paraíso?...

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Como é que em dor genial eu me eterizo?



Nem ópio nem morfina. O que me ardeu

Foi  álcool mais raro e penetrante:

É só de mim que eu ando delirante

Manhã tão forte que me anoiteceu.



[Mário de Sá-Carneiro]

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

FONTE DO TEMPO

saudades do meu  Amigo José Alberto

FONTE DO TEMPO

Para nascer basta um momento
breve é o tempo para morrer
mas é tão longo o sofrimento
de nem sequer ter tempo p’ra sofrer.

Quantas milhas já calcorreei
à procura de quem me procurasse, meu amor
e nunca te encontrei
nos lábios que julguei, da tua face.

De súbito parei e vi-me ao espelho.
Nem meu rosto afinal é o que procuro
estes olhos são já de um homem velho
e eu quero um olhar simples e puro.

Se te encontrar perdoa se for tarde
na rua ou no campo, em algum templo
que dirás deste modo de covarde
de não levar mais tempo para o tempo.

P’ra nascermos, passaram dois mil anos
quantos amores houve antes de nós!
Sómente para os nossos desenganos
estamos de repente longe e sós.

Basta um segundo para nascer.
Um tempo p’ra morrer súbito e breve, meu amor
pudesses tu dizer
não há vida ou morte que nos leve!

[ José Alberto Miranda Boavida -"Dinis Diogo" ]

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Os Meus Livros

Jorge Luis Borges, nasceu há 112 anos

 
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
dir-me-ão para sempre.

[Jorge Luis Borges]