sexta-feira, 16 de setembro de 2011

SILÊNCIO

Foto de Igor Moreira Gomes, Curitiba, PR

Uma noite
quando o mundo já era muito triste
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito
e aí, como um queixume
ouviu-se essa voz de dor
que já era a tua voz
como um metal fino
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa
encostada à garganta.

[José Agostinho Baptista]



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Passei o dia ouvindo o que o Mar dizia


Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Falou-me do seu destino
Do seu fado...

Depois, para se alegrar
Ergueu-se  e bailando  e rindo
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu hálito perfuma
E o seu perfume faz mal!

Deserto de águas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Ele afastou-se calado
Eu afastei-me mais triste
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.

Voz do mar, misteriosa
Voz do amor e da verdade!
Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica
Trémula voz de quem parte...»


E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!



 [António Botto]

Certeza

Sereno, o parque espera.
Mostra os braços cortados
E  sonha  a primavera
Com seus olhos gelados

É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente.

Basta que um novo Sol
Desça do velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.


[Miguel Torga]