domingo, 4 de setembro de 2011

VIVE EM CADA MINUTO

Vive em cada minuto
a tua eternidade
sem luto
nem saudade.
 Vive-a pleno e forte
num frenesim
de arremesso.
 Para que a tua morte
seja sempre um fim
e nunca um começo.

[José Gomes Ferreira]

sábado, 3 de setembro de 2011

Metamorfoses


Faça-se luz
neste mundo profano
que é o meu gabinete de trabalho:
uma despensa.

As outras dividiam-se por sótãos
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz
livros e detergentes.

Que a luz penetre
no meu sótão mental
do espaço curto

E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem!

[Ana Luísa Amaral]

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

À ENTRADA DA NOITE

Paul Cézanne. Maçãs verdes, c. 1873. Óleo

Fogem agora, os olhos
 Fogem da luz latindo.
Estão doentes, ou velhos, coitados…
defendem-se do que mais amam.
Tenho tanto que lhes agradecer:
as nuvens, as areias, as gaivotas
a côr pueril dos pêssegos
o peito espreitando
 entre o linho da camisa
 a friorenta claridade de Abril
 o silêncio branco sem costura
 as pequenas maçãs verdes de Cézanne
 O mar.

[Eugénio de Andrade]

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Deixa ficar a flor

Deixa ficar a flor
A morte na gaveta,
O tempo no degrau.

Conheces o degrau:
O sétimo degrau
Depois do patamar
O que range ao passares
O que foi esconderijo
Do maço de cigarros
Fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures.
 Deixa o tempo no degrau,
A morte na gaveta.

Conheces a gaveta:
A primeira da esquerda
Que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
Pela janela fora?
Na batalha do ódio
Destruam-se, fechados
Sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?

Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...

Não digas nada. Ouve:
É com certeza alguém,
Alguém que traz a chave.

[David Mourão-Ferreira]