sábado, 10 de setembro de 2011

Se Me Deixares, Eu Digo

 Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente
E  neste mundo de enganos
Fala verdade quem mente.
Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos
Já não aquece outra boca
Já não merece os teus beijos
Mas  tem cuidado comigo
Não procures ser ausente:
Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente.

[António Botto]

A MAIOR TORTURA

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura ainda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor!...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O futuro é espaço

O futuro é espaço
espaço da cor da terra
da cor da nuvem
da cor da água, do ar
espaço negro para muitos sonhos
espaço branco para toda a neve
e para toda a música.

Atrás ficou o amor desesperado
que não tinha lugar para o beijo
há lugar para todos no bosque
em plena rua, em casa
tem sítio subterrâneo e submarino
que prazer é achar, por fim
subindo um planeta vazio
grandes estrelas claras como a vodka
tão transparentes e desabitadas
chegar com o primeiro telefone
para que falem mais tarde
 outros homens das suas enfermidades.

O importante é apenas perceber-se
gritar desde uma dura cordilheira
e ver numa outra ponta
os pés de uma mulher recém-chegada.

Adiante, vamos sair do rio sufocante
em que com outros peixes navegamos
desde a manhã,  à noite migratória
e agora neste espaço descoberto
vamos voar para a pura solidão.

[Pablo Neruda]

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um breve olhar

Lá em cima, no ar
Sobre a monotonia de estas casas
Sulcando, sereníssimas, os céus
Abrem a larga rima das suas asas
Lenços brancos do azul, dizendo adeus
Ao vento e ao mar.

Eu fico a vê-las
E meus olhos, de as verem, vão partindo
E fugindo com elas
E a segui-las eu penso
Enquanto o olhar no azul se espraia e prega
Que há uma graça, que há um sonho imenso
Em tudo o que flutua e que navega…

Para onde se desterram as gaivotas
Contra o vento vogando, altas e belas
Essas voantes e pairantes frotas
Essas vivas e alvas caravelas?

Vão para longe… E lá desaparecem
Ao largo, por detrás do monte
E os nossos olhos olham e entristecem
Com as vagas saudades que merecem
As coisas que se somem no horizonte!


[Afonso Lopes Vieira]

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O amor e o tempo

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu, subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

- Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados
Abrem as asas trémulas ao vento...
– Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?  Nesse momento.

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!


[António Feijó]



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nada consta

Falta-me a folha cinco
E entretanto a barba foi crescendo
a minha barba veio crescendo ferozmente
indiferente à morte de um ou outro amigo
às letras protestadas aos desgostos domésticos
às viagens lunares às convenções às lutas
Quando as coisas se erguem contra o homem
se eriçam agressivas contra ele
nem ao poeta basta o parapeito das palavras
Eu por exemplo homem de pouco tempo
trazido pelos dias aqui estou
Continuo a dizer: se alguma coisa há
que podias perder e ainda não perdeste
de que já a perdeste podes estar derto
Falta-me a folha cinco
Estou com a barba feita
Ainda este ano talvez em marienbad
eu vi mulheres curtidas pelos lutos
Mal de morte é o meu
em plena posição de pé às três da tarde
em meio do movimento do rossio
sentado à tarde no cinema em dias de semana
Já caem carnes já se perdem pêlos
já quase só me resta a devoção
Lisboa certos dias um amigo às vezes
Poucas coisas importantes pensei durante a vida
uma mesa de sol em pleno inverno
um mar incontroverso alguns papéis
- continua a faltar-me a folha cinco -
pois apesar de tudo nada consta



[Ruy Belo]

Canção da Primavera

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.
Catavento enlouqueceu
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.
Dancemos todos, dancemos
Amadas, Mortos, Amigos
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

[Mário Quintana]