quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Certeza

Sereno, o parque espera.
Mostra os braços cortados
E  sonha  a primavera
Com seus olhos gelados

É um mundo que há-de vir
Naquela fé dormente
Um sonho que há-de abrir
Em ninhos e semente.

Basta que um novo Sol
Desça do velho céu
E diga ao rouxinol
Que a vida não morreu.


[Miguel Torga]

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama
que se torna a mais larga e mais relvosa
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto amor: o ganho não previsto
o prémio subterrâneo e coruscante
leitura de relâmpago cifrado
que  decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

[Carlos Drummond de Andrade]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sete luas

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

[Natália Correia]

domingo, 11 de setembro de 2011

Nostalgia

Longe de mim está o sonho.
Dos lugares onde existi.
Das correrias que partilhei.
Dos gestos trocados por sílabas
formas de carinho retiradas das sombras
no granito das paredes
nos passos na calçada
escutando a luz do sol
esperando gota a gota que a água refresque as palavras.

Longe de mim está a minha alma.
Nunca terei partido.
Nunca terei chegado...
Reencontro imagens de outrora.
Nem sei se existem!
Sei que partem em cada romagem ao cemitério.
São sepultadas na memória de uma nova ausência.
Uma vida desfeita em suor
suportada na saudade
no desfazer da lágrimas.

Perto de mim está a multidão.
Gemendo em lamentos invisíveis.
Suportando a descompostura da indiferença.
Neste labirinto me procuro.
Não desisto da solidão.
Atiro-me para este grosseiro ruído.
Finjo que é silêncio.


[José Gomes Ferreira]

O Luar bate na relva

O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas ...
Se eu já não posso crer que isso é verdade
Para que bate o luar na relva?

[Alberto Caeiro]