domingo, 18 de setembro de 2011

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

[Al Berto]

sábado, 17 de setembro de 2011

Na Passagem de um ano

Erros nossos não são de toda a gente
Tropeçamos às vezes na entrega
Mas retomamos sempre a marcha em frente
Massa humana que nada desagrega.
Para nós o passado e o presente
São futuro no qual o povo pega
Com suas mãos de luz incandescente
Que aquece que deslumbra mas não cega.
Para nós não há tempo. O tempo é vento
Soprando ano após ano sobre a história
Que para nós é vida e não memória.
Por isso é que no tempo em movimento
Cada ano que passa é meu tempo
Para chegar ao tempo da vitória.



[José Carlos Ary dos Santos]

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Chamaram-me Poeta

Chamaram-me poeta....quem diria
que pode haver poetas sem poesia?..
tudo o que tenho em mim para vos dar
são pedaços de sol e de luar
colhidos ao sabor da fantasia...

São noites de tormento e solidão
são dias amassando o próprio pão
são ventos , são searas, são chaparros
são rodas a gemer de muitos carros
levando para a eira o trigo em grão...

São rouxinois cantando nas caneiras
são águas a correr nas ribanceiras
são gritos, são soluços, gargalhadas
são ecos a cair pelas quebradas
são seixos a rolar pelas ribeiras...

Chamaram-me poeta. Não sabia
mas sei que o sou, depois que neste dia
reli meus versos onde vivo inteira.
E porque vivo, eu fiz desta maneira
Poemas, dum poeta sem poesia...

[Maria Manuel Cid]


SILÊNCIO

Foto de Igor Moreira Gomes, Curitiba, PR

Uma noite
quando o mundo já era muito triste
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito
e aí, como um queixume
ouviu-se essa voz de dor
que já era a tua voz
como um metal fino
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa
encostada à garganta.

[José Agostinho Baptista]