sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lúbrica

Bruno Pinto 1992

 
Mandaste-me dizer
No teu bilhete ardente
Que hás-de por mim morrer
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Oh cálida mulher
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu  neles, sempre espelhas
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais
Mulher, que me dissecas
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!

[Cesário Verde]

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

AMOR SEM TRÉGUAS

É necessário amar
qualquer coisa, ou alguém
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem
nem importa de quê
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.


Pode ser uma mulher
uma pedra, uma flor
uma coisa qualquer
seja lá do que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize
coisa apenas pensada
que a sonhar se precise.

Amar por claridade
sem dever a cumprir
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

Amar como o homem forte
só ele o sabe e pode-o
amar até à morte
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente
quando o clima é de horror
é forma inteligente
de se morrer de amor.

[António Gedeão]

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ao rosto vulgar dos dias

Monstros e homens lado a lado
Não à margem, mas na própria vida.
Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.
Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias
A vida cada vez mais corrente
As imagens regressam já experimentadas
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.


[Alexandre O´Neill]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Seria o Amor Português

Muitas vezes te esperei, perdi a conta
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
tanto pó sobre os móveis na tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira
que me importa que batam à porta
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa, mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas
que batam, se não és tu, à porta?

[Fernando Assis Pacheco]

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

No País dos Sacanas

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência
 a justiça, a bondade, etc., etc.
 sejam outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro e o gajo morreu na mesma.

[Jorge de Sena]

domingo, 18 de setembro de 2011

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

[Al Berto]

sábado, 17 de setembro de 2011

Na Passagem de um ano

Erros nossos não são de toda a gente
Tropeçamos às vezes na entrega
Mas retomamos sempre a marcha em frente
Massa humana que nada desagrega.
Para nós o passado e o presente
São futuro no qual o povo pega
Com suas mãos de luz incandescente
Que aquece que deslumbra mas não cega.
Para nós não há tempo. O tempo é vento
Soprando ano após ano sobre a história
Que para nós é vida e não memória.
Por isso é que no tempo em movimento
Cada ano que passa é meu tempo
Para chegar ao tempo da vitória.



[José Carlos Ary dos Santos]