segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mulher ao espelho

Hoje que seja esta ou aquela
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo  e do meu rosto
se tudo é tinta: o mundo, a vida
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes
outros, buscando-se no espelho.

[Cecília Meireles]

domingo, 25 de setembro de 2011

ACONTECEU POESIA

A poesia, não é tão rara, como parece.
Na mais ínfima das coisas
A poesia acontece.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu, que me cabia.
Aconteceu poesia
Quando as tuas mãos numa carícia vaga
Moldaram no meu rosto, ar de angústia
Que o tempo não apaga.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu , que me fugia.
Até no dia em que morreste, Mãe
Aconteceu poesia.

[Fernando Vieira]

sábado, 24 de setembro de 2011

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lúbrica

Bruno Pinto 1992

 
Mandaste-me dizer
No teu bilhete ardente
Que hás-de por mim morrer
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Oh cálida mulher
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu  neles, sempre espelhas
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais
Mulher, que me dissecas
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!

[Cesário Verde]