quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Relógio


Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contra tempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.

[José Carlos  Ary dos Santos]

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Não me peças mais canções

Alfred Gockel

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Dize à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.

Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto

Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse !
Mas sóbria por natureza

Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo…
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

[António Botto]


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Tempo Passa? Não Passa

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade
pois só quem ama
escutou, o apelo da eternidade.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 9 de outubro de 2011

Feliz do que é levado a enterrar



Feliz do que é levado a enterrar
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!

Feliz do que não riu para não chorar
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar
Feliz do que partiu e não sofreu!

Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra
Terrores imaginários de crianças!

Feliz do que não ouve o mundo aos gritos
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas

[Reinaldo Ferreira]

Rosa do Mundo

Rosa.
Rosa do mundo.
Queimada.
Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto.
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa.
Repartida
Amada.
Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada.

[Eugénio de Andrade]

sábado, 8 de outubro de 2011

Da oferta e da procura

Com tanta angústia em stock
não sei o que fazer:
acumulada é tanta
que o coração assim
não cabe mais

Vendo-a barata, avulso
à vontade de bolso ou contentor
na quantidade exacta
que o desejo traz

Ou troco um quilo dela
por grama de suor

…ou meio grama de paz

[Ana Luísa Amaral]

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

[Vasco Graça Moura]