quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Porta do Armário Aberta

Abro a porta do armário
como abro um diário
a minha vida ali
dependurada
meu frusto cotidiano
sem segredos
intimidade exposta
que os botões não defendem
nem se veda nos bolsos
espelho mais real que todo espelho
entregando à devassa
as medidas do corpo.

Armário
tabernáculo do quarto
que abro de manhã
como à janela
para sagrar o ritual do dia.
Sala de Barba Azul
coalhada de pingentes
longas saias e véus
emaranhados sem que sangue goteje.
Corpos decapitados
ausentes minhas mãos
dos murchos braços.

Do armário minhas roupas
me perseguem
como baú de herança ou
maldição.
Peles minhas pendentes
em repouso
silenciosas guardiãs
dos meus perfumes
tessituras de mim
mais delicadas
que a luz desbota
que o tempo gasta
que a traça rói
ainda assim durarão nos seus cabides
muito mais do que eu sobre meus ossos.

Nenhuma levarei.
Irei despida
deixando atrás de mim
a porta aberta.

[Marina Colasanti]

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tardes Inventadas

As tardes inventei-as
Fulgurantes umas
sonolentas outras
quentes ou arrepiantes
e todas geradoras
 de instantes impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prenda
uma estrela, um cometa
o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.

[Saúl Dias]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Veneno de Sol

A tua frescura  Amor
Encontrou-me ao fim da tarde
E o meu desejo, esse calor em ti
Não arde

Estamos sós, nada sucede
Nem nos amámos sequer
Quando me beijas com sede
Eu abraço-te
 sem querer

E por mais que te queira, não te tenho
E  ter-te assim demais, Amor
Não quero

[Fernando Tavares Rodrigues]

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.

Começar morto, para despachar logo o assunto.
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois - "Voilà!" - desapareço num orgasmo.

[ Woody Allen]

Indício (de ouro…)

Não me digam que não ouvem
Na pulsação da manhã
Sinfonias de Beethoven
E Prelúdios de Chopin!?...

Não me digam que persiste
Convosco, a música triste
O aroma de pesar
D’ alguma ária de Liszt
D’ algum requiem de Mozart?!...

- Necessário é coroar
d’élans
o  coração

E erguer a prumo, no ar
Manhãs
De Restauração!

[Rodrigo Emílio]

“Suster o peso da hora…”

      Não fugir.
        Suster o peso da hora
        Sem palavras minhas
        e sem os sonhos fáceis
        e sem as outras falsidades.
        Numa espécie de morte mais terrível
        Ser de mim todo despojado
        Ser abandonado aos pés como um vestido.
        Sem pressa atravessar a asfixia.
        Não vergar.
        Suster o peso da hora
        Até soltar sua canção intacta.

       [Cristovam Pavia]

domingo, 2 de outubro de 2011

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

[Natália Correia]

sábado, 1 de outubro de 2011

Soneto Superdesenvolvido


É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer o bem.

Por isso, quando no Verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
consola mais viver entre os muito pobres
que conviver com gente a quem não falta nada.

E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou.

Teria este... se não tivesse outro sentido
ser natural de um país subdesenvolvido.

[Ruy Belo]