quinta-feira, 6 de outubro de 2011

das magnólias

Sabes leitor
que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas
 podes pensar que te digo alguma coisa
 não necessária, mas podia ter-te dito, acredita
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.
 Ou melhor, que a magnólia
 e essa é a verdade
 cresce sempre apesar de nós.
Esta raiz para a palavra
 que ela lançou no poema
Pode bem significar
que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti.
 E a flor que te estendo
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer
 nem jamais, por muito que a ame
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita
 a tua sombra e eu toco na sombra da magnólia
 como se pegasse na tua mão

[Daniel Faria]

Porta do Armário Aberta

Abro a porta do armário
como abro um diário
a minha vida ali
dependurada
meu frusto cotidiano
sem segredos
intimidade exposta
que os botões não defendem
nem se veda nos bolsos
espelho mais real que todo espelho
entregando à devassa
as medidas do corpo.

Armário
tabernáculo do quarto
que abro de manhã
como à janela
para sagrar o ritual do dia.
Sala de Barba Azul
coalhada de pingentes
longas saias e véus
emaranhados sem que sangue goteje.
Corpos decapitados
ausentes minhas mãos
dos murchos braços.

Do armário minhas roupas
me perseguem
como baú de herança ou
maldição.
Peles minhas pendentes
em repouso
silenciosas guardiãs
dos meus perfumes
tessituras de mim
mais delicadas
que a luz desbota
que o tempo gasta
que a traça rói
ainda assim durarão nos seus cabides
muito mais do que eu sobre meus ossos.

Nenhuma levarei.
Irei despida
deixando atrás de mim
a porta aberta.

[Marina Colasanti]

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tardes Inventadas

As tardes inventei-as
Fulgurantes umas
sonolentas outras
quentes ou arrepiantes
e todas geradoras
 de instantes impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prenda
uma estrela, um cometa
o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.

[Saúl Dias]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Veneno de Sol

A tua frescura  Amor
Encontrou-me ao fim da tarde
E o meu desejo, esse calor em ti
Não arde

Estamos sós, nada sucede
Nem nos amámos sequer
Quando me beijas com sede
Eu abraço-te
 sem querer

E por mais que te queira, não te tenho
E  ter-te assim demais, Amor
Não quero

[Fernando Tavares Rodrigues]

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.

Começar morto, para despachar logo o assunto.
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois - "Voilà!" - desapareço num orgasmo.

[ Woody Allen]

Indício (de ouro…)

Não me digam que não ouvem
Na pulsação da manhã
Sinfonias de Beethoven
E Prelúdios de Chopin!?...

Não me digam que persiste
Convosco, a música triste
O aroma de pesar
D’ alguma ária de Liszt
D’ algum requiem de Mozart?!...

- Necessário é coroar
d’élans
o  coração

E erguer a prumo, no ar
Manhãs
De Restauração!

[Rodrigo Emílio]