quarta-feira, 19 de outubro de 2011

De Saudades vou Morrendo

De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda
Oh alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d' um louco?
Enchei-vos d' água, meus olhos
Enchei-vos d' água, chorai!

[António Botto]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Não é música

Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas
 os braços de um deus cruel
o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu, cujo perfil se desvanece
 cuja doçura se perde nos confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens
 onde escurecem as sendas e as sombras
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam, pelo lado das acácias.


[José Agostinho Baptista]

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sem depois

("Sol Poente", de Tarsila do Amaral, 1929)

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos
se desfizeram em redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei a minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.


[Mia Couto]

domingo, 16 de outubro de 2011

Da Realidade

Que renda fez a tarde no jardim
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

[Miguel Torga]

sábado, 15 de outubro de 2011

Ao cair das folhas

Pudessem suas mãos cobrir meu rosto
fechar-me os olhos e compor-me o leito
quando, sequinho, as mãos em cruz no peito
eu me for viajar para o Sol-posto.

De modo que me faça bom encosto
o travesseiro comporá com jeito.
E eu tão feliz! Por não estar afeito
hei-se sorrir, Senhor, quase com gosto.

Até com gosto, sim! Que faz quem vive
órfão de mimos, viúvo de esperanças
solteiro de venturas, que não tive?

Assim, irei dormir com as crianças
quase como elas, quase sem pecados…
E acabarão enfim os meus cuidados.

[António Nobre]

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A SOLIDÃO DO CÁRCERE

" quadro de Maria Adelaide"

 
Neste terrível sepulcro da existência
O triste coração de dor se parte
A mesquinha razão se vê sem arte
Com que dome a frenética impaciência.

Aqui pela opressão, pela violência
Que em todos os sentidos se reparte
Transitório poder quer imitar-te
Eterna, vingadora omnipotência!

Aqui onde o que o peito abrange e sente
Na mais ampla expressão acha estreiteza
Negra ideia do abismo assombra a mente.

Difere acaso da infernal  tristeza
Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente
Ser vivo  e não gozar da Natureza?

[Bocage]

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Antes que Seja Tarde

Amigo
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas como as águas
 de um lago adormecido, acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!
Amigo
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

[Manuel da Fonseca]

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Relógio


Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contra tempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.

[José Carlos  Ary dos Santos]