segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bilhete postal

Escrevo-te agasalhando o nosso amor
que o tempo é este inverno sem disfarce:
Pelos meus olhos fartos de miséria
Mereço bem a luz da tua face.

Mas no meu coração as pobres coisas
choram, a cada lágrima exigida
a tristeza precisa pra que eu saiba
quanto custa a alegria duma vida!

[Carlos de Oliveira]

domingo, 23 de outubro de 2011

Lisboa


No bairro de Alfama
 os eléctricos amarelos
 cantavam nas subidas.
Havia duas prisões.
 Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam.
Eles queriam ser fotografados!

"Mas aqui", dizia o revisor
 e ria baixinho como um afectado
"aqui sentam-se os políticos".
 Eu vi a fachada
 a fachada e em cima
 a uma janela, um homem
com um binóculo à frente dos olhos
 espreitando para além do mar.

A roupa pendia no azul.
 Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois
 peguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real?
 Ou fui eu que sonhei ?

[Tomas Tranströmer – Prémio Nobel  - 2011]

(Tradução por Luís Costa)

sábado, 22 de outubro de 2011

NOSTALGIA

Nesse país de lenda, que me encanta
Ficaram meus brocados, que despi
E as jóias que p´las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o reino de que eu sou infanta!

Ó meu país de sonho e de ansiedade
Não sei se esta quimera que me assombra
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim... Ah!
Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Requiem (ao menino morto, eu próprio)

A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos.
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)
Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno
Pela  erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...

Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo
Já me confundo contigo.

[Cristovam Pavia]

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tão Linda e Serena e Bela

Tão lenta e serena e bela e majestosa
vai passando a vaca
Que, se fora na manhã dos tempos
de rosas a coroaria
A vaca natural e simples
 como a primeira canção
A vaca, se cantasse
Que cantaria?
Nada de óperas
 que ela não é dessas, não!
Cantaria o gosto dos Arroios
 bebidos de madrugada
Tão diferente do gosto
 de pedra do meio-dia!
Cantaria o cheiro dos trevos machucados.
Ou, quando muito
A longa, misteriosa vibração
 dos alambrados...
Mas nada de super-aviões
 tractores, êmbolos
E outros truques mecânicos!

[Mário Quintana]