quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Segundo poema da alienação


Dai-me o que de mim resta
para que, incompleto
me perca na contemplação
do tempo por encontrar
da viagem por percorrer
Dai-me a estrela ardente
a picada sem destino
a luz mortiça
desvendando o alfabeto
convoquem todas as crianças
e encham-se de rostos
as janelas das escolas
Devolvam-me ao corpo ferido
de onde se escoou o sangue
de um companheiro fardado
Em redor da sombra
ergam-se paredes de claridade
estilhace-se em mil pedaços
o meu nome, minha palavra
para que na transpiração dos corpos
o poema produza
e se reconstrua
como veia que reencontra o corpo.

[Mia Couto]

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Testamento


À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura
sonhando algures uma lenda
deixo o meu vestido branco
o meu vestido de noiva
todo tecido de renda…
este meu rosário antigo
oferece-o àquele amigo
que não acredita em Deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer
são para os homens humildes
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança
desesperada mas firme
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora
em que a minha lama venha
beijar de longe os teus olhos
vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…


[Alda Lara]

terça-feira, 22 de novembro de 2011

AMEAÇA DE MORTE

 Não basta ter-me dado
nos meus versos:
Pedem a carne e a pele
os inimigos.
Os olhos, dois postigos
De olhar o mundo
sem ninguém me ver
Querem-nos entaipado
E quebrados, os braços
que eram ramos a crescer.

Luto, digo que não
peço socorro
Mas saiu-me ao caminho
uma alcateia.
Lobos da liberdade alheia
Que me seguem os passos
hora a hora
Sem que eu possa
sequer adivinhar
Na paisagem
do medo tumular
Qual deles salta primeiro
e me devora.

[Miguel Torga]

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DIAGNÓSTICO, POSOLOGIA, ADMINISTRAÇÃO


Finalmente curei-me. Os nomes em que assento
a frase são só nomes de figura sem forma.
É pena os advérbios, mas o meu objectivo
é reduzir de vez aplicação e norma.

Finalmente curei-me. Isso nota-se até
na tentativa (quase) de adjectivos ausente.
É pena os advérbios, mas qualquer terapia
pressupõe um transfer, mesmo que finalmente.

Por cavalos sem rédeas de qualificação
neste pós-operatório movimento de agora
sonho um espaço e um tempo de fala e amplidão.

E na totalidade de uma cura verbal
vejo-me em prognóstico a escrever o futuro
sem dependência da morfina adverbial.

[Ana Luísa Amaral]

domingo, 20 de novembro de 2011

E DEUS EXPULSOU ADÃO…


E  Deus expulsou Adão
com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou
o primeiro rum na terra.
E  Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade  encurralava-os
mesmo assim continuaram a cantar
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóscele e sagrado
um  ângulo duplo e apimentado brilhava
e eclipsava o outro.

[JACQUES PRÉVERT]

sábado, 19 de novembro de 2011

Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!


Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!
Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço!
Mas não.
Lá está o sol do costume
com a exactidão
duma bola de lume
desenhada a compasso...
...sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
que é sol com bolor...
e desde que nasci
haja paz ou guerra
nunca vi outra coisa.
Ah! Como queres que acredite em ti
braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?

[José Gomes Ferreira]

Estranho é o sono que não te devolve


Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
 e surpreende e por fora
é apenas peso de ser tarde.
Como é amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.


[Daniel Faria]