domingo, 6 de novembro de 2011

Como está sereno o Céu


Como está sereno o Céu
como sobe mansamente
a Lua resplandecente
e esclarece este jardim!

 Os ventos adormeceram
das frescas águas do rio
interrompe o múrmurio
de longe o som de um clarim.

 Acordam minhas ideias
que abrangem a Natureza
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

 Mas se à lira lanço a mão
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças
e choro em vez de cantar.

[ Marquesa de Alorna]

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (1750-1839) nasceu em Lisboa. Tendo o seu pai sido preso, acusado de participar no atentado ao rei D. José, Leonor, de oito anos, entrou com sua irmã para o convento de Chelas, vindo somente a sair após a morte do Marquês de Pombal. Casou com o Conde de Oeynhausen e viajou por Viena, Berlim e Londres. Enviuvou aos 43 anos de idade, vivendo com algumas dificuldades económicas, dificuldades estas que não a impediram de se dedicar à literatura. Adoptou na Arcádia o nome de Alcipe. Traduziu a Arte Poética de Horácio e o Ensaio sobre a Crítica de Pope. É considerada uma poetisa pré-romântica. As suas obras foram publicadas em 1844 em seis volumes com o título genérico de Obras Poéticas.

sábado, 5 de novembro de 2011

Sonho

Falo-te dum sonho
Daquele que tantas vezes tenho.
Dispo a ansiedade
Desapertando
Botão a botão
Desejos insaciáveis
Até ficar despida, um instante…

Aliso o leito
Aquele mar por ti amado.
Com ele me cubro
Apagando a luz da realidade
Deixando apenas acesa
A lua da imaginação…

Agora, fecho os olhos.
Não há tempo, distância, matéria…
De mim só existe a alma
Coberta por um mar de mil cores
Que não te explico
Que conheces
Bem melhor do que eu.

Assim fico
Escrevendo esta quase imitação de carta
Tão sem tempo!
Tenho frio!
Tardas!

Eis senão quando
Quase no fim do horizonte
Onde o teu mar abraça a minha lua
Vejo uma ave voando
E  que  num bailado único
Raiado de verde e de azul
De mim se aproxima
À minha alma se dirige.

Quase não me mexo…
(e tão ansiosa me sinto!)
Para que de mim se não desvie
O voo daquela ave.
Levanto a ponta do mar
Preparo um espaço
Uma praia
Neste leito onde estou
E peço a Deus
Que o bater do meu coração
A não afugente…

Percebo que és tu!
Ainda assim
Fico-me neste aparente sossego…
Sobrevoas-me
Sem um bater de asas
Acabando por pousar
No areal imenso que para ti preparei.
Que mais dizer?
Calar este meu desejo?
Afinal havia tempo!
E é desse tempo que te falo.

Desvendo agora o meu segredo:
Do meu corpo me distanciei
Para que na minha alma pousasses.
Agora estás em mim!
Sobe pelo meu corpo
E deixa que no teu
O meu se derrame…
Fiquemos assim
Tendo como limite
O espelho do nosso encontro:
Um mar, uma lua, uma brisa…

Falei-te dum sonho.
Foi meu
Talvez teu
Mas agora é nosso!
Completou-se o triângulo:
Um vértice – Tu!
Outro – o Mar!
O último – Eu!

[Cristina Miranda]

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quanto Morre um Homem

 Quando eu um dia
 decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

[Ruy Belo]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Romance de Tomasinho Cara-Feia

Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destino.
Só nha Fortunata, a mãe
Que é velha e não tem ninguém
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta
Deixou para sempre a horta
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
outro nome, quem lho dá?
farto de sol e de areia
foi prá pesca da baleia.

E nunca mais voltará!


[Daniel Filipe]

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CÂNTICO IV

Adormece o teu corpo
com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quer  ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês  então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

[Cecília Meireles]