quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Retrato do Povo de Lisboa


É da torre mais alta
do meu pranto
que eu canto
este meu sangue
este meu povo.
Dessa torre maior
em que apenas
sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe
a ganga da tristeza
e põe a nu
a espádua da saudade
chama que nasce e cresce
e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo
uma criança seminua
nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde
sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói
só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio
dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido
a nódoa negra
punhada no meu canto.

[José Carlos Ary dos Santos]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Paisagem


Passavam pelo ar aves repentinas
O cheiro da terra era fundo e amargo
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura
Era a carne das árvores elástica e dura
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa
Era o peso e era a cor de cada coisa
A sua quietude, secretamente viva
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo
Cuja voz, quando se quebra, sobe
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A CANÇÃO DA VIDA


A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupío...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

[Mário Quintana]

Foto de Aline Monique

domingo, 13 de novembro de 2011

Eu venho do sonho e fujo da vida



  Eu venho do sonho e fujo da vida.
Errei no caminho para a paz prometida.

 Só sei que me chama um canto do mar
E a nau dos sonhos no céu a varar.

Ó meu capitão da barca perdida
A errar entre o sonho e o engano da vida!

[Natália Correia]

Santo Agostinho


"Ter fé, é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser. “
 [Santo Agostinho]

 Aurélio Agostinho, conhecido como Santo Agostinho
 (Tagaste, 13 de novembro de 354 - Hipona, 28 de agosto de 430)
 Santo Agostinho, foi um bispo, escritor, teólogo, filósofo e é um Padre latino e Doutor da Igreja Católica.

sábado, 12 de novembro de 2011

OS MEUS BEIJOS


Na nocturna solidão
Meus beijos de longe vão
Cair mortos a teus pés
Vão no luar irmanados
Correndo loucos, coitados
À noite de lés a lés.

Na noite sonho liberto
Sinto talvez mais perto
O calor do teu olhar
E a minha canção vadia
Com a noite magra e fria
Sem te poder encontrar.

Quando pela madrugada
Vem a verdade orvalhada
E a fria realidade
Tudo então desaparece
E do que a luz esvanece
Fica somente a saudade.

                 [ Manuel de Andrade]