sábado, 19 de novembro de 2011

Estranho é o sono que não te devolve


Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
 e surpreende e por fora
é apenas peso de ser tarde.
Como é amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.


[Daniel Faria]


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Que triste é vê-la tão perto


A saudade é dor tamanha
Que já não sei distinguir
Se é ela que me acompanha
Ou eu que a ando a seguir.

Que triste é vê-la tão perto
A face dorida e estranha…
E apenas saber ao certo
Que a saudade é dor tamanha.

No presente ou no futuro
Mesmo que a veja sorrir
Se é minha, por Deus eu juro
Que já não sei distinguir.

E nenhum calor aquece
O gelo desta montanha…
Será meu ser que a estremece
Ou ela que me acompanha?

Tento saber, não consigo!
E não chego a descobrir
Se é ela que anda comigo
Ou eu que a ando a seguir

[Maria Manuel Cid]

A minha Querida Tia Mimela

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O meu amor tem duas vidas


Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida
a palavra é uma asa do silêncio
o fogo tem uma metade de frio.

 Amo-te para começar a amar-te
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
Nas  minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

[Pablo Neruda]

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Retrato do Povo de Lisboa


É da torre mais alta
do meu pranto
que eu canto
este meu sangue
este meu povo.
Dessa torre maior
em que apenas
sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe
a ganga da tristeza
e põe a nu
a espádua da saudade
chama que nasce e cresce
e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo
uma criança seminua
nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde
sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói
só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio
dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido
a nódoa negra
punhada no meu canto.

[José Carlos Ary dos Santos]

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Paisagem


Passavam pelo ar aves repentinas
O cheiro da terra era fundo e amargo
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura
Era a carne das árvores elástica e dura
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa
Era o peso e era a cor de cada coisa
A sua quietude, secretamente viva
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo
Cuja voz, quando se quebra, sobe
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A CANÇÃO DA VIDA


A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupío...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

[Mário Quintana]

Foto de Aline Monique