segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DIAGNÓSTICO, POSOLOGIA, ADMINISTRAÇÃO


Finalmente curei-me. Os nomes em que assento
a frase são só nomes de figura sem forma.
É pena os advérbios, mas o meu objectivo
é reduzir de vez aplicação e norma.

Finalmente curei-me. Isso nota-se até
na tentativa (quase) de adjectivos ausente.
É pena os advérbios, mas qualquer terapia
pressupõe um transfer, mesmo que finalmente.

Por cavalos sem rédeas de qualificação
neste pós-operatório movimento de agora
sonho um espaço e um tempo de fala e amplidão.

E na totalidade de uma cura verbal
vejo-me em prognóstico a escrever o futuro
sem dependência da morfina adverbial.

[Ana Luísa Amaral]

domingo, 20 de novembro de 2011

E DEUS EXPULSOU ADÃO…


E  Deus expulsou Adão
com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou
o primeiro rum na terra.
E  Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade  encurralava-os
mesmo assim continuaram a cantar
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóscele e sagrado
um  ângulo duplo e apimentado brilhava
e eclipsava o outro.

[JACQUES PRÉVERT]

sábado, 19 de novembro de 2011

Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!


Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!
Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço!
Mas não.
Lá está o sol do costume
com a exactidão
duma bola de lume
desenhada a compasso...
...sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
que é sol com bolor...
e desde que nasci
haja paz ou guerra
nunca vi outra coisa.
Ah! Como queres que acredite em ti
braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?

[José Gomes Ferreira]

Estranho é o sono que não te devolve


Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
 e surpreende e por fora
é apenas peso de ser tarde.
Como é amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.


[Daniel Faria]