quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Outra vez o Natal :(


Começa a tortura e eu a desejar, que chegue rápido  o dia 26.
Já vou no 3º ano de briga com o Natal, a altura do ano em que de repente as pessoas ficam todas boazinhas e solidárias.
Nada tenho contra quem gosta,eu próprio já gostei, sobretudo quando a minha Mãe era viva… nessa altura eu conseguia rever-me no espírito do Natal, porque a minha Mãe era isso tudo, Boa, solidária,o melhor Ser-Humano que conheci!

Feliz Natal Mãe!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A nossa casa


A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, oh meu Amor, dentro de mim...

                         [ Florbela Espanca]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Coro de Natal

Quem nos garante que estamos vivos
que sequer somos o que fingimos
se atravessamos ruas e praça
sempre com espadas entre as espáduas
e com serpentes em torno aos braços
e com cilícios em vez de cílios
e com os sonhos desarrumados
pelos sorrisos e compromissos
desta comédia de celebrar-te
assegurando que não existes

Quem nos garante que estamos vivos
Ou não seremos somente o lixo
da grande roda que nos esmaga
da grande garra que nos agarra
do grande grito que nem gritado
por todos juntos será ouvido
Quem nos garante se neste espaço
que nos separa só o sigilo
preenche as pausas a grande pausa
de recearmos que tu existas

Quem nos garante que estamos vivos
se atravessando ruas e rios
portas e portos pontes e praças
só deparamos com os esgares
que já tiveram as nossas faces
à mesma hora nos mesmos sítios
Quem nos garante que sob as lajes
de outras cidades de outros jazigos
neste momento ressuscitados
não afirmamos que Tu existes

[David Mourão-Ferreira]

Picasso-"o sonho"

Quem não Ama não Vive


Já na minha alma se apagam
As alegrias que eu tive
Só quem ama tem tristezas
Mas quem não ama não vive.

Andam pétalas e folhas
Bailando no ar sombrio
E as lágrimas, dos meus olhos
Vão correndo ao desafio.

Em tudo vejo Saudades!
A terra parece morta.
oh vento que tudo levas
Não venhas à minha porta!

E as minhas rosas vermelhas
As rosas, no meu jardim
Parecem, assim caídas
Restos de um grande festim!

Meu coração desgraçado
Bebe ainda mais licôr!
Que importa morrer amando
Que importa morrer d'amor!

E vem ouvir bem-amado
Senhor que eu nunca mais vi:
Morro mas levo comigo
Alguma coisa de ti.

[António Botto]

domingo, 4 de dezembro de 2011

AFINIDADE


A afinidade não é o mais brilhante
mas o mais subtil, delicado
e penetrante dos sentimentos.
É o mais independente.

Não importa o tempo
a ausência, os adiamentos
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade
qualquer reencontro
retoma a relação
o diálogo, a conversa
o afecto no exacto ponto
em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo
mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado
sobre o real.
Do subjectivo para o objectivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe
não precisa de códigos verbais
para se manifestar.
Existia antes do conhecimento
irradia durante e permanece depois
que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade
de expressar a um não afim
sai simples e claro
diante de alguém
com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe
pensando parecido
a respeito dos mesmos fatos
que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro
com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com
nem sentir contra, nem sentir para
nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem
para o ser  amado
não para eles próprios.

Sentir com
é não ter necessidade
de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar
ou, quando é falar
jamais explicar:
apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por
confunde afinidade
com masoquismo.
Mas quem sente com
avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar
o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade
questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas
semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio
tanto nas possibilidades exercidas
quanto das impossibilidade vividas.

Afinidade é retomar a relação
no ponto em que parou
sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação
nunca existiram.
Foram apenas oportunidades
dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum
pudesse se dar.
E para que cada pessoa
pudesse e possa ser
cada vez mais a expressão do outro
sob a forma ampliada
do eu individual aprimorado

[Artur da Távola]

sábado, 3 de dezembro de 2011

Os rios atónitos


Há palavras a dormir
sobre o seu largo assombro
Por exemplo
se dizes Quanza
ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado
os próprios rios

Ou seja
as águas pesadas de lama
os peixes todos
e os perigos inumeráveis
O musgo das margens
o escuro mistério em movimento.

Dizes Quanza
ou dizes Congo
e um rio corre lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar  preenche-se
de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes
há grandes aves
e súbitos sons redondos
e convexos.

E dizes Quanza
ou dizes Congo
e sempre que o dizes
acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro
e infinito assombro.


[José Eduardo Agualusa]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite
é tempo sem hora
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve
e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora
será pequenino
feito grão de milho.

[Carlos Drummond de Andrade]