segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal


As emissoras difundiram
a mensagem de Natal
do Presidente da Cruelândia:
“Inventamos um novo míssil
capaz de destruir
em pleno silêncio
o ventre da mais pequena
semente da terra”.

As sementes
 no entanto prosseguem
em seu ofício
de liberdade.
Indiferentes
aos mecanismos
da usura e da guerra.
 Operários da paz
no centro da terra.

[Casimiro de Brito]

domingo, 18 de dezembro de 2011

Teu Corpo Principia


Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
Nesta hora, aqui.

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol , verdade
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura
oh tão delgada.

Se é milagre existires
teus pés nas minhas palmas.

Oh maravilha
Existo no mundo
dos teus olhos.

Oh vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

[António Ramos Rosa]

sábado, 17 de dezembro de 2011

AMOR É SÍNTESE


Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste
a uma análise profunda
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente
inseguro, carente
Todo cheio de marcas
que a vida deixou
Vejo em cada grito
de exigência
Um pedido de carência
 um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue
abraçar um pedaço
Me envolva todo
em seus braços
E eu serei
o perfeito amor.

[Mário Quintana]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Minha culpa


Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados
Num mundo de maldades e pecados
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

                         [ Florbela Espanca]

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O quotidiano "não"


Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.
Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»
não figura nesta prosa
assim do pé para a mão
pois o saco utilizado
que pode ser o do pão
recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão
a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não
que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde
sem maior desilusão:
Para dizer a verdade
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação
(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção
de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»
por todos os meios, desde
a fingida distracção
até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...


[Alexandre O´Neill]

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A minha camisa rôta

 A minha camisa rôta
(Pois não tenho quem me a cosa)
É parte minha na rota
Que vai para qualquer cousa
Pois o estar rôta denota
Que a minha atenção valiosa
Para outros cimos se volta.
Mas sei que isto é nada
Que a miséria não é mal
E que a camisa rasgada
Não me traz a alma enganada
Em busca do Santo Graal

[Fernando Pessoa]


domingo, 11 de dezembro de 2011

Poema Quotidiano


É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro

[Ruy Belo]

sábado, 10 de dezembro de 2011

Tinha o nome de saudade



Tinha o nome de saudade
Aquela a quem pertenci
Com toda a alma e fervor.
Deu-me tanta felicidade
Que eu nunca mais esqueci
Essas loucuras de Amor.

Vivendo a nossa loucura
A queimarmos em seu lume
Passámos noites inteiras.
Com mil zangas à mistura
Pois as paixões sem ciúme
Não podem ser verdadeiras.

E um dia tudo acabou
Deixei de ser o preferido
Daquela a quem tanto amei
Ela nunca mais voltou
E eu, com o orgulho ferido
Também, não a procurei.

E contra a nossa vontade
cada um seguiu porém
na vida, diferentes linhas.
hoje é d'outro essa saudade
Mas há pouco disse alguém...
Que sente saudades minhas!

[João Maria dos Anjos/João de Freitas]

[Na voz do Saudoso António Mello Corrêa]