segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Gaiola de vidro


Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.
No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem nós somos:
só distintos de cada um dos outros
para quem apenas
somos uma face em muitas
pelo que em nós se torna
além do espaço uma visão
de espelhos transparentes.
Mas o que nos distingue não existe.

[Jorge de Sena]

sábado, 24 de dezembro de 2011

Círculo Vicioso


As flores rareiam nos campos
Não faz mal
Desfolharei um pavão
no jogo do malmequer
E qualquer que seja a resposta
muito, pouco, nada
darei uma gargalhada
pela vaidade dos homens e dos bichos.


[Ruy Guerra]

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Este foi o nosso último abraço


Este foi o nosso último abraço.
E quando, daqui a nada
deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente
os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo
que hoje não daremos.
E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que afinal
o que tive da vida
foi mais, muito mais
do que mereci.

[Maria do Rosário Pedreira]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Suspiro


Voai, brandos meninos tentadores
Filhos de Vénus, deuses da ternura
Adoçai-me a saudade amarga e dura
Levai-me este suspiro aos meus amores:

Dizei-lhe que nasceu dos dissabores
Que influi nos corações a formosura
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura
Porção do mais leal dos amadores:

Se o fado para mim sempre mesquinho
A outro of’rece o bem de que me afasta
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho:

Quando um deles soltar na esfera vasta
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho
Eu sou tão infeliz, que isso me basta.

                      [Bocage]

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Missa de Aniversário


Há um ano
que os teus gestos
andam ausentes da nossa freguesia
Tu que eras destes campos
onde de novo a seara amadurece
donde és hoje?
Que nome novo tens?
Haverá mais singular fim de semana
do que um sábado assim
que nunca mais tem fim?
Que ocupação é agora a tua
que tens todo o tempo livre à tua frente?
Que passos te levarão atrás
do arrulhar da pomba em nossos céus?
Que te acontece que não mais fizeste anos
embora a mesa posta continue à tua espera
e lá fora na estrada as amoreiras
tenham outra vez  florido?

Era esta a voz dele assim é que falava
dizem agora as giestas desta sua terra
que o viram passar nos caminhos da infância
junto ao primeiro voo das perdizes

Já só na gravata
te levamos morto àqueles caminhos
onde deixaste a marca dos teus pés
Apenas na gravata.
A tua morte deixou de nos vestir completamente
No verão em que partiste
bem me lembro
pensei coisas profundas
É de novo verão.
Cada vez tens menos lugar
neste canto de nós
donde anualmente
te havemos piedosamente
de desenterrar
Até à morte da morte

[Ruy Belo]

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal


As emissoras difundiram
a mensagem de Natal
do Presidente da Cruelândia:
“Inventamos um novo míssil
capaz de destruir
em pleno silêncio
o ventre da mais pequena
semente da terra”.

As sementes
 no entanto prosseguem
em seu ofício
de liberdade.
Indiferentes
aos mecanismos
da usura e da guerra.
 Operários da paz
no centro da terra.

[Casimiro de Brito]