terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Velhice Pede Desculpas

Tão velho estou como árvore no inverno
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas
acostumado apenas ao som das músicas
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo
com suas sombras, porém suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória
são na verdade só destroços, destroços.

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

CANÇÃO À AUSENTE

Para te amar ensaiei os meus lábios…
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos…
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei os meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio…
Para te ouvir ensaiei os meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando…
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando…
E nunca mais vieste!

[Pedro Homem de Mello]

domingo, 22 de janeiro de 2012

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

[Mário Quintana]

sábado, 21 de janeiro de 2012

O amor que sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome)
sombra necessária
de um Sol que não vejo
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere
chame-se mulher
onda de veludo
pátria mal-amada
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

             [ José Gomes Ferreira]

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Os Amantes com casa

 Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte voltavam a andar pela casa
 amando-se no chão e contra as paredes.
Então era a música como se cada corpo
 atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença
 agora serena e mais pobre
 mas ávidamente rica por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne era a carne do amor
era o fogo do amor, o fogo de arder
amando-se e por toda a casa
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos por amor de olhar
por olhar o amor.
E no chão contra as paredes se amaram
 E pela casa andavam
 Como se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica, agora nova e mais serena,
ávidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo, chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo
incarnando o amor, incarnando o fogo
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que andando pela casa
 bastaria tocarem-se para ficarem dormindo
como acordam as aves.

[Joaquim Pessoa]


(“Os amantes”de René Magritte)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer
sabe a cal molhada
sabe a luz mordida
sabe a brisa nua
ao sangue dos rios
sabe a rosa louca
ao cair da noite
sabe a pedra amarga
sabe à minha boca.

            [Eugénio de Andrade]


Eugénio nasceu faz hoje 89 anos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Beijos

Nos beijos invisíveis dos nossos desejos
Não existe tempo nem dimensão
Só o verbo divino do amor sincero e suave.
É presente na ausência das horas
Vibra nos lábios, como um sonho sem fronteiras
São beijos adocicados, molhados, revestidos de prazer
Em qualquer hora…em qualquer lugar

[Graça  Silva]

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=15146

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

P Á T R I A

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Oh minha pátria e meu centro

Dói –me a lua e soluça-me o mar
E o exílio inscreve-se em pleno tempo.



[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Soneto de Mal Amar

 Invento-te, recordo-te, distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência, meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa,  joio e trigo
apenas por ternura levedadas.

[José Carlos Ary dos Santos]

domingo, 15 de janeiro de 2012

Balada para um Homem na Multidão

 Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

[Natália Correia]

sábado, 14 de janeiro de 2012

Deve ser o último tempo

Deve ser o último tempo
A chuva definitiva
 sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera.
Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.



[Daniel Faria]


(Foto de Filipe Arruda)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O CÚ DA MARUXA

Um cu que se desvela em Agosto em Ourense
redondo para olhar um cu magnificente
um cu como um bisonte
o teu cu Maruxa adivinhado num restaurante
eu rimo tanto cu que trago na memória
o teu fará por certo mais história
é um cu para a glória é nena impante
rodando na cadeira el’ deixa-nos suspensos
quase presos Maruxa pelos beiços
lembra-me nédio raxo assim forte de febra
lêveda e alva nas Burgas cozinhando
se de soslaio agora se requebra
é como canta Maruxa! igual que um pássaro
ao qual neste mesón péssoro vénia
teu ouriflâmio cu me faz insónia
     

 [Fernando Assis Pacheco]

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Emprego e Desemprego do Poeta

 Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

[Ruy Belo]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Encomenda Postal

destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta

[Al Berto]

(Al Berto faria hoje 64 anos)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente
Tu és talvez, alguém que se finou!

Tu és  talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque  ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…

[Florbela Espanca]

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Se fosses luz…

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!

Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim a sede
 e a vibração de te beijar!

Se fosses água, música da terra
Serias água pura e sempre calma!
Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero, meu amor, que sejas alma!

[António Botto]

domingo, 8 de janeiro de 2012

Poema do Homem Só

Sós
irremediàvelmente sós
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta

quer se grite ou não se grite
nenhum dar-se de outro se refracta
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento

sou eu só e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos
dão-se as noites  e dão-se os dias
dão-se aflitivas esmolas
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias
dão-se os nervos, dá-se a vida
dá-se o sangue gota a gota
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo
este ser-se sem disfarce
virgem de mal e de bem
este dar-se, este entregar-se
descobrir-se  e desflorar-se
é nosso de mais ninguém.


[António Gedeão]



sábado, 7 de janeiro de 2012

Soneto de Inês

Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.

[José Carlos Ary dos Santos]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

És livre...

És livre na luz do Sol
e livre ante a estrela da noite
E és livre quando não há sol
nem lua ou estrelas.
Inclusive, és livre
quando fechas os olhos
a tudo que existe.
Porém, és escravo de quem amas
pelo facto mesmo de amá-la.
E és escravo de quem te ama
pelo facto mesmo
de te deixares amar.

[Khalil Gibran]

Khalil Gibran, o Poeta do Amor, nasceu faz hoje 129 anos

http://pt.wikipedia.org/wiki/Khalil_Gibran

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Vem…

Vem...Que ainda te espero
E em pensamentos te venero
Meu corpo em ti é sedento
Vem findar-me o tormento

Ouça que tenho saudade
Creia, disfarça a maldade
Toque-me em sedas
Despe-me em rendas

Vem...Que ainda te espero
Sem ciclos fechados, te quero
portas que se podem abrir
Janelas, janeiros a sorrir.

Vem que a sede me mata
Beber em beijos cascata
Canela, floral e pecados
Murmúrios em doces bocados

Ouça que tenho saudade
Creia, disfarça a maldade
Toque-me em sedas
Despe-me em rendas

Vem que o tempo já passa
Não há nada que tudo não possa
Não resistas, não esperes.

Vem deslizar em meu corpo suado
Cobrir-me em ritos sagrados
Busque-me, me encontres, não te percas

Que venhas então lorde amado
Não quero somente recados
Quero a ti, por ti somente

Vem que ainda te espero
Sem ciclos fechados te quero
Portas que se podem abrir
Janelas, janeiros a sorrir

Em vultos não quero o passado
Em vezes não quero o que é único
Desprendas, te rendas ao alado

Ensina-me, insone me guardes
Não quero o que explicas
Apenas que me toques

A chance que busco somente
Vem...renasce a semente
Germina e me seduz...

[Sandra Fichera]

Parabéns Querida Sandra pelo seu Aniversário,um beijo do tamanho do mundo


http://sandrafichera.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Lua (Dizem os Ingleses)

A lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.
 
E era essa, era, era essa
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De sentir e de pensar.

Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando

[Fernando Pessoa]

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sugestão

As companheiras que não tive
Sinto-as chorar por mim, veladas
Ao pôr do sol, pelos jardins...
Na sua mágoa azul revive
A minha dor de mãos finadas
 Sobre setins...

[Mário de Sá-Carneiro]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tantas formas revestes...

Tantas formas revestes
e nenhuma me satisfaz!
Vens às vezes no amor
e quase te acredito.
Mas todo o amor
é um grito desesperado
Que ouve apenas o eco.
Peco por absurdo humano
Quero não sei que cálice profano
Cheio dum vinho herético e sagrado

[Miguel Torga]

domingo, 1 de janeiro de 2012

A cavalo no vento



A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
Ó mar despedaçado
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

[David Mourão-Ferreira]

sábado, 31 de dezembro de 2011

O Poema


Ou se vive por inteiro
ou pela metade
a gente escreve a vida
que não viveu.

E o papel em branco
então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi
é o ser que é
no poema, esse acto mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.

[Moacyr Félix]