terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Amor, Meu Amor

O nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
As minhas pernas são água
as tuas são luz e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito na tua claridade
para me cegar
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu  bebes-me
e eu converto-me na tua sede.
Os meus lábios mordem
Os meus dentes beijam
A minha pele veste-te
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade
 ser a minha própria espera.
 Mas eu deito-me no teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Os teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

[Mia Couto]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Testamento dos Namorados

Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.

[Natália Correia]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um Homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
Os meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!

[José Craveirinha]


Tela: Rousseau Surprised Tiger in a Tropical Storm - Henri Rousseau

sábado, 4 de fevereiro de 2012

lonjura

eterno é o instante
diante da tua imagem
tão interno
tão distante
tão impossível viagem

nesse infinito nos meço
como se olhasse sem fim
que de ti nunca regresso
ou nunca parto de mim

[José Alberto Miranda Boavida – “Dinis Diogo”]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Se Me Esqueceres

Se Me Esqueceres
 Quero que saibas uma coisa.

Sabes como é:
se olho a lua de cristal
 o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti
como se tudo o que existe
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos
 que navegam até às tuas ilhas
 que me esperam.

Mas agora
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa que nesse dia,
a essa hora, levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias
a toda a hora
te sentes destinada a mim
com doçura implacável
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura
ai meu amor, ai minha amada
em mim todo esse fogo se repete
em mim nada se apaga nem se esquece
o meu amor alimenta-se do teu amor
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

[Pablo Neruda]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Pequeno Sismo

Há um pequeno sismo
 em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura
 da tua boca lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera quinze anos
 e toda a terra fosse leve.
Oh indizível primavera.

[Eugénio de Andrade]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Confronto

Bateu Amor à porta da Loucura.
Deixa-me entrar, pediu , sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão.

A Loucura desdenha recebê-lo
sabendo quanto Amor vive de engano
mas estarrece de surpresa ao vê-lo
de humano que era, assim tão inumano.

E  exclama: Entre correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu

enquanto me retiro, sem destino
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar.

[Carlos Drummond de Andrade]

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Girassol

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

Vamos brincar de carrossel, pessoal?

"Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor".

 Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
 Besouro é muito pesado!
 Borboleta tem que fingir de borboleta
 na entrada!
Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

"Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol".
E o girassol vai girando dia afora . . .

O girassol é o carrossel das abelhas.

[Vinicius de Moraes]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Poema Cansado de Certos Momentos

 Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens, metade de mim
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens, de gestos saqueados
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz e de roubar distâncias.
Meus braços cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste
ai mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e  embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido como as ervas
e não olhaste os pegos nem as cobras
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?

[Fernando Namora]


Querida Mãe, faz hoje 3 anos que foste embora e tanta coisa que ficou por te dizer. Fica sempre, Mãe nunca avisa quando se vai embora. Lá tenho sobrevivido, não sei como, isto por aqui vai de mal a pior, contigo por aqui as coisas eram bem melhores, fazes-me tanta falta querida Mãe, Grande Amor da minha vida.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Sofreguidão de um Instante

Tudo renegarei menos o afecto
e trago um ceptro e uma coroa
o primeiro de ferro, a segunda de urze
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda
que seja em redor do teu sono
num êxtase de lábios sobre a relva
num delírio de beijos sobre o ventre
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.

[José Jorge Letria]

sábado, 28 de janeiro de 2012

O poema

O poema levar-me-á no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sózinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá às searas
A sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
As suas sílabas redondas
(Oh antigas oh longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

[Sophia de Mello Breyner Andresen ]   

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Roteiro de Lisboa

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

[Maria Teresa Horta]

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ronda

Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...

Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
Na dança dos meses
meus olhos choraram

Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!

Na dança dos meses
meus olhos cansaram...

Na dança do tempo,
quem não se cansou?!

Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...

Dizei-me, dizei-me
até quando? até quando?


[Alda Lara (poetisa angolana)]



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Naufrágio

Ai a tristeza do vento
chorando...
Ai as nuvens indo à solta
em louca corrida
medrosas, fugindo à mão estendida...
Ai a solidão dos montes
despidos, à nossa volta
onde a vida aos poucos se consome
seios nus ensanguentados
onde as raízes
morrem de fome...

... E nos rostos ensombrados
rondam saudades: - países
navegam velas: - distâncias...
Gestos parados
caladas ânsias
gritos sem voz...

Dorme o Nosso Senhor Só
dentro de cada um de nós,
envolvido pelo pó
que o vento remexeu e levantou.

Ai este Atlântico triste
que nos deu a nostalgia
dum mundo que só existe
no sonho que ele povoou.


[Manuel Lopes ]


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Velhice Pede Desculpas

Tão velho estou como árvore no inverno
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas
acostumado apenas ao som das músicas
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo
com suas sombras, porém suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória
são na verdade só destroços, destroços.

[Cecília Meireles]

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

CANÇÃO À AUSENTE

Para te amar ensaiei os meus lábios…
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos…
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei os meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio…
Para te ouvir ensaiei os meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando…
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando…
E nunca mais vieste!

[Pedro Homem de Mello]

domingo, 22 de janeiro de 2012

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

[Mário Quintana]

sábado, 21 de janeiro de 2012

O amor que sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome)
sombra necessária
de um Sol que não vejo
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere
chame-se mulher
onda de veludo
pátria mal-amada
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

             [ José Gomes Ferreira]

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Os Amantes com casa

 Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte voltavam a andar pela casa
 amando-se no chão e contra as paredes.
Então era a música como se cada corpo
 atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença
 agora serena e mais pobre
 mas ávidamente rica por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne era a carne do amor
era o fogo do amor, o fogo de arder
amando-se e por toda a casa
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos por amor de olhar
por olhar o amor.
E no chão contra as paredes se amaram
 E pela casa andavam
 Como se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica, agora nova e mais serena,
ávidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo, chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo
incarnando o amor, incarnando o fogo
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que andando pela casa
 bastaria tocarem-se para ficarem dormindo
como acordam as aves.

[Joaquim Pessoa]


(“Os amantes”de René Magritte)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer
sabe a cal molhada
sabe a luz mordida
sabe a brisa nua
ao sangue dos rios
sabe a rosa louca
ao cair da noite
sabe a pedra amarga
sabe à minha boca.

            [Eugénio de Andrade]


Eugénio nasceu faz hoje 89 anos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Beijos

Nos beijos invisíveis dos nossos desejos
Não existe tempo nem dimensão
Só o verbo divino do amor sincero e suave.
É presente na ausência das horas
Vibra nos lábios, como um sonho sem fronteiras
São beijos adocicados, molhados, revestidos de prazer
Em qualquer hora…em qualquer lugar

[Graça  Silva]

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=15146

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

P Á T R I A

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Oh minha pátria e meu centro

Dói –me a lua e soluça-me o mar
E o exílio inscreve-se em pleno tempo.



[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Soneto de Mal Amar

 Invento-te, recordo-te, distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu não disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência, meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa,  joio e trigo
apenas por ternura levedadas.

[José Carlos Ary dos Santos]

domingo, 15 de janeiro de 2012

Balada para um Homem na Multidão

 Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

[Natália Correia]

sábado, 14 de janeiro de 2012

Deve ser o último tempo

Deve ser o último tempo
A chuva definitiva
 sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera.
Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.



[Daniel Faria]


(Foto de Filipe Arruda)