sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma Voz na Pedra

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu
 na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria
 e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria
 do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre
 de sombra fulgurante.
A minha ebriedade
 é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha
 quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei.
 Amo em total abandono.
Sinto a minha boca
 dentro das árvores
 e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente
 algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida
 estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez
 e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega
 nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera
 ser aberto por uma palavra.

[António Ramos Rosa]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

amas ou finges morrer

Pernoitas em mim
 e se por acaso te toco a memória...
 amas ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

[Al Berto]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Soneto inglês

Como o silêncio do punhal num peito
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer

Vive em mim o teu nome, tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito
É a vida que espero não perder.

Viver a vida e não viver a morte
Procurar noutros olhos a medida
Vencer o tempo, dominar a sorte

Atraiçoar a morte com a vida!
Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...



[Alexandre O´Neill]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Amor, Meu Amor

O nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
As minhas pernas são água
as tuas são luz e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito na tua claridade
para me cegar
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu  bebes-me
e eu converto-me na tua sede.
Os meus lábios mordem
Os meus dentes beijam
A minha pele veste-te
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade
 ser a minha própria espera.
 Mas eu deito-me no teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Os teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

[Mia Couto]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Testamento dos Namorados

Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.

Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.

Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.

[Natália Correia]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um Homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
Os meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!

[José Craveirinha]


Tela: Rousseau Surprised Tiger in a Tropical Storm - Henri Rousseau

sábado, 4 de fevereiro de 2012

lonjura

eterno é o instante
diante da tua imagem
tão interno
tão distante
tão impossível viagem

nesse infinito nos meço
como se olhasse sem fim
que de ti nunca regresso
ou nunca parto de mim

[José Alberto Miranda Boavida – “Dinis Diogo”]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Se Me Esqueceres

Se Me Esqueceres
 Quero que saibas uma coisa.

Sabes como é:
se olho a lua de cristal
 o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti
como se tudo o que existe
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos
 que navegam até às tuas ilhas
 que me esperam.

Mas agora
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa que nesse dia,
a essa hora, levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias
a toda a hora
te sentes destinada a mim
com doçura implacável
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura
ai meu amor, ai minha amada
em mim todo esse fogo se repete
em mim nada se apaga nem se esquece
o meu amor alimenta-se do teu amor
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

[Pablo Neruda]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Pequeno Sismo

Há um pequeno sismo
 em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura
 da tua boca lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera quinze anos
 e toda a terra fosse leve.
Oh indizível primavera.

[Eugénio de Andrade]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Confronto

Bateu Amor à porta da Loucura.
Deixa-me entrar, pediu , sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão.

A Loucura desdenha recebê-lo
sabendo quanto Amor vive de engano
mas estarrece de surpresa ao vê-lo
de humano que era, assim tão inumano.

E  exclama: Entre correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu

enquanto me retiro, sem destino
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar.

[Carlos Drummond de Andrade]

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Girassol

Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

Vamos brincar de carrossel, pessoal?

"Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor".

 Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
 Besouro é muito pesado!
 Borboleta tem que fingir de borboleta
 na entrada!
Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

"Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol".
E o girassol vai girando dia afora . . .

O girassol é o carrossel das abelhas.

[Vinicius de Moraes]

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Poema Cansado de Certos Momentos

 Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens, metade de mim
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens, de gestos saqueados
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz e de roubar distâncias.
Meus braços cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste
ai mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e  embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
Mãe! tu nunca previste as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido como as ervas
e não olhaste os pegos nem as cobras
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido?

[Fernando Namora]


Querida Mãe, faz hoje 3 anos que foste embora e tanta coisa que ficou por te dizer. Fica sempre, Mãe nunca avisa quando se vai embora. Lá tenho sobrevivido, não sei como, isto por aqui vai de mal a pior, contigo por aqui as coisas eram bem melhores, fazes-me tanta falta querida Mãe, Grande Amor da minha vida.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Sofreguidão de um Instante

Tudo renegarei menos o afecto
e trago um ceptro e uma coroa
o primeiro de ferro, a segunda de urze
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda
que seja em redor do teu sono
num êxtase de lábios sobre a relva
num delírio de beijos sobre o ventre
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.

[José Jorge Letria]

sábado, 28 de janeiro de 2012

O poema

O poema levar-me-á no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sózinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá às searas
A sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
As suas sílabas redondas
(Oh antigas oh longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

[Sophia de Mello Breyner Andresen ]   

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Roteiro de Lisboa

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

[Maria Teresa Horta]