quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As Frágeis Hastes do Amor

 Não voltarei à fonte dos teus flancos
ao fogo espesso do verão
a escorrer infatigável
dos espelhos, não voltarei.
Não voltarei ao leito breve
onde quebrámos uma a uma
todas as frágeis hastes do amor.
Eis o outono: cresce a prumo.
Anoitecidas águas
em febre em fúria em fogo
arrastam-me para o fundo.

[Eugénio de Andrade]


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lábios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume
na luz queimada
da pupila mais azul

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas
no alto e navegável
golfo do desejo

onde o furor habita
crispado de agulhas
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

[Eugénio de Andrade]


“o beijo” de Gustav klimt

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Minha Mãe eu canto a noite

Minha Mãe, eu canto a noite
Porque o dia me castiga
E é no silêncio das coisas
Que eu encontro a voz amiga

Minha Mãe, eu choro a noite
Neste amor em que me afundo
Porque as palavras da vida
Já não têm outro mundo

Minha  Mãe, eu grito a noite
Como um barco que se afasta
E se perde no mar alto
Ao pé da onda mais  casta

Minha Mãe, o que fizeste
O que fez o teu Amor
Naquela  hora tardia
Em que me pariste em dor

Por isso soo este canto
Minha Mãe, tão magoado
Que visto a noite em corpo
Sem destino, mas com fado

[Vasco de Lima Couto]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Soneto...

 Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude
magoado parecer aos olhos pede
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos  e responde.

[António Gedeão]

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Variações da Saudade

Saudade, pão de sustento
meu vinho de consagrar
ai  Deus “i u é” Saudade
sem ti não posso passar!

Saudades vivas da Terra
vivas saudades do Mar...
Oh  o desejo impossível
de se partir e ficar!

Sereias, Nau Catrineta
Sete-Partidas do Mundo...
Quem é que mede a Saudade,
se é como um poço sem fundo ?!

«A vida acaba na morte,
não pode a alma morrer!»
Oh, a saudade sem nome
de ser a gente e não ser!


[António Sardinha]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma Voz na Pedra

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu
 na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria
 e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria
 do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre
 de sombra fulgurante.
A minha ebriedade
 é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha
 quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei.
 Amo em total abandono.
Sinto a minha boca
 dentro das árvores
 e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente
 algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida
 estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez
 e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega
 nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera
 ser aberto por uma palavra.

[António Ramos Rosa]