domingo, 19 de fevereiro de 2012

Desencontro

Só quem procura sabe
 como há dias de imensa paz deserta
pelas ruas a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste.
Nenhum gesto a um gesto corresponde
olhar nenhum perfura a placidez
como de incesto, de procurar em vão
 em vão desponta a solidão sem fim
 sem nome algum
 que mesmo o que se encontra
 não se encontra.

[Jorge de Sena]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Fugaz

neste universo onde gira
em proporção de metade
a lua da minha mentira
e o sol da tua verdade

é este o maior desgosto
que que eu levo para a cova
conheci-te era sol posto
partiste com a lua nova.

[José Alberto Miranda Boavida (Diniz Diogo)]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Crise lamentável

Gostava tanto de mexer na vida
De ser quem sou,  mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente
Não ter juízo nos meus livros
Mas chegar ao fim do mês sempre
com as despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas
À minha Torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
Não mandar telegramas ao meu Pai
Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair
não precisar de hora e meia
 antes de vir prà rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento

Que tudo é em fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

 (Paris - Janeiro 1916.)



[Mário de Sá-Carneiro]



Pintura óleo sobre Cartão e Tela
(Mário de Sá Carneiro raptando Maria Helena Vieira da Silva, 1972)
Mário Cesariny

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lei

O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar mesmo
 a onda amarga que leva os mortos.
O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.
O que é preciso é que os olhos
 sejam cristal sem névoa e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha
e ouça a notícia do tempo
entre os assombros da vida e da morte
estenda suas diáfanas asas, isenta por igual.
de desejo e de desespero.

[Cecília Meireles]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As Frágeis Hastes do Amor

 Não voltarei à fonte dos teus flancos
ao fogo espesso do verão
a escorrer infatigável
dos espelhos, não voltarei.
Não voltarei ao leito breve
onde quebrámos uma a uma
todas as frágeis hastes do amor.
Eis o outono: cresce a prumo.
Anoitecidas águas
em febre em fúria em fogo
arrastam-me para o fundo.

[Eugénio de Andrade]


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lábios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume
na luz queimada
da pupila mais azul

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas
no alto e navegável
golfo do desejo

onde o furor habita
crispado de agulhas
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

[Eugénio de Andrade]


“o beijo” de Gustav klimt