segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Canção de Charme

 Querida vem junto de mim
Esta noite quero cantar
Uma canção para ti

Uma canção sem lágrimas
Uma canção ligeira
Uma canção de charme

O charme das manhãs
Envolvidas em bruma
Em que valsam coelhos

O charme dos pântanos
Onde alegres crianças louras
Pescam crocodilos

O charme dos prados
Que se ceifam no Verão
Para podermos rebolar-nos

O charme das colheres
Que rapam os pratos
E a sopa de olhos claros

O charme do ovo cozido
Que permitiu a Colombo
O truque mais luzido

O charme das virtudes
Que dão ao pecado
O gosto do proibido

Podia ter-te cantado
Uma canção de carvalho
De ulmeiro ou de choupo

Uma canção de plátano
Uma canção de teca
De rimas mais duráveis

Mas sem ruído nem alarme
Preferi experimentar
Esta canção de charme

Charme do velho notário
Que no estúdio austero
Denuncia o falsário

Ou o charme da chuva
Escorrendo gotas de ouro
Sobre o cobre do leito

Charme do teu coração
Que vejo junto ao meu
Quando penso no bem-estar

Ou o charme dos sóis
Que giram sempre em volta
De horizontes vermelhos

E o charme dos dias
Apagados da nossa vida
Pela goma das noites

[Boris Vian]


Fotografia: Clémence Veilhan

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Desencontro

Só quem procura sabe
 como há dias de imensa paz deserta
pelas ruas a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste.
Nenhum gesto a um gesto corresponde
olhar nenhum perfura a placidez
como de incesto, de procurar em vão
 em vão desponta a solidão sem fim
 sem nome algum
 que mesmo o que se encontra
 não se encontra.

[Jorge de Sena]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Fugaz

neste universo onde gira
em proporção de metade
a lua da minha mentira
e o sol da tua verdade

é este o maior desgosto
que que eu levo para a cova
conheci-te era sol posto
partiste com a lua nova.

[José Alberto Miranda Boavida (Diniz Diogo)]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Crise lamentável

Gostava tanto de mexer na vida
De ser quem sou,  mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente
Não ter juízo nos meus livros
Mas chegar ao fim do mês sempre
com as despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas
À minha Torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
Não mandar telegramas ao meu Pai
Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair
não precisar de hora e meia
 antes de vir prà rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento

Que tudo é em fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

 (Paris - Janeiro 1916.)



[Mário de Sá-Carneiro]



Pintura óleo sobre Cartão e Tela
(Mário de Sá Carneiro raptando Maria Helena Vieira da Silva, 1972)
Mário Cesariny

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lei

O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar mesmo
 a onda amarga que leva os mortos.
O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.
O que é preciso é que os olhos
 sejam cristal sem névoa e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha
e ouça a notícia do tempo
entre os assombros da vida e da morte
estenda suas diáfanas asas, isenta por igual.
de desejo e de desespero.

[Cecília Meireles]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As Frágeis Hastes do Amor

 Não voltarei à fonte dos teus flancos
ao fogo espesso do verão
a escorrer infatigável
dos espelhos, não voltarei.
Não voltarei ao leito breve
onde quebrámos uma a uma
todas as frágeis hastes do amor.
Eis o outono: cresce a prumo.
Anoitecidas águas
em febre em fúria em fogo
arrastam-me para o fundo.

[Eugénio de Andrade]