segunda-feira, 19 de março de 2012

Poema Contíguo ao Ódio

Que gelado sopro nos agita do lado de dentro das ruas?
 Que rápida vertigem nos domina nesta agudíssima manhã?
 Este vento que nos queima estas veias mais quentes
 Estes longos minutos que sacodem o rosto
 Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
 Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
 Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
 Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
 Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
 Estes grandes traços negros de trânsito impedido

[João Rui de Sousa]



domingo, 18 de março de 2012

o suporte da música

 
o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher
 a pauta dos seus gestos tocando-se
ou dos seus olhares encontrando-se
 ou das suas vogais adivinhando-se abertas e recíprocas
ou dos seus obscuros sinais de entendimento
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência
dos seus ouvidos e do olfacto
 de tudo o que se ramifica entre os timbres os perfumes
 mas é também um ritmo interior
 uma parcela do cosmos
e eles sabem-no, perpassando por uns frágeis momentos
 concentrado num ponto minúsculo  intensamente luminoso
que a música, desvendando-se, desdobra
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

[Vasco Graça Moura]

sábado, 17 de março de 2012

Pergunto-te

 Pergunto-te
 onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu.
Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas
 aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto?
 Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias?
 E de cada pergunta minha
 vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos
 de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada
do silêncio da coisa irrespondida.

[Cecília Meireles]

sexta-feira, 16 de março de 2012

Princípio

 Não tenho deuses.
 Vivo desamparado.
Sonhei deuses outrora
Mas acordei.
Agora, os acúleos são versos
E tacteiam apenas
A ilusão de um suporte.
Mas a inércia da morte
O descanso da vide na ramada
A contar primaveras uma a uma
Também me não diz nada.
A paz possível é não ter nenhuma.

[Miguel Torga]

quinta-feira, 15 de março de 2012

Ode ao Gato

 Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e  sobre o desconsolo dos escombros
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

[José Jorge Letria]

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dois Rumos

 Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida
sem alívio de penas

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto

se componho um casulo
e nele me agasalho
tornando o resto nulo

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.

[Carlos Drummond de Andrade]

terça-feira, 13 de março de 2012

Poema de Amor para Uso Tópico

 Quero-te
 como se fosses
a presa indiferente
 a mais obscura das amantes.
 Quero o teu rosto
de brancos cansaços
 as tuas mãos que hesitam
 cada uma das palavras
que sem querer me deste.
 Quero que me lembres
 e esqueças
 como eu te lembro e esqueço:
 num fundo a preto e branco
 despida como a neve matinal
 se despe da noite, fria, luminosa…
voz incerta de rosa.

[Nuno Júdice]