domingo, 4 de março de 2012

Cantiga


Se os meus olhos te incomodam
Quando estou na tua frente
Desde já posso arrancá-los
Para te amar cegamente.

Seja o que for, não me importa
Mas sei que não é por mim
Que os teus nervos adoecem
E andam sem governo e assim...
Outra vida, não a minha,
Outro abraço e outro beijo
Te perturba e te desvaira
Não mintas!, porque eu bem vejo!
Mas, continua, vai indo
Sim, vai até te cansares!
Para ver o que tu contas
Se algum dia me voltares!

Não te incomodes comigo.
Nas lágrimas também há
Satisfação e conforto
Nem tudo o que alguém nos mata
Fica perdido ou é morto.
O coração ressuscita
Muita coisa que julgámos
Esquecida para sempre
Nas sombras da realidade
O coração tem uma vida
Que pode tudo no mundo,
Chama-se apenas: Saudade!

Com ela é que eu vou vencendo
Este grande desalento
Que apaga os gritos da carne
Em falas do pensamento!
Agarro-me às sensações
Que foram o dia de ontem
Felicidade sem névoa
Dos nossos dias felizes!
E fico a chorar de raiva
Por não ver bem a mentira
Que há nos silêncios marcados
De tudo quanto me dizes!

Acabou-se!
 E tu desculpa.
Falei, agora e não digo
Nunca mais uma palavra
Acerca do nosso amor.
Fica por lá se quiseres
Até mudares ou seres
Numa nova reacção
Límpida, pura, fremente
Outra tortura presente
Na minha humilde paixão!
Outro céu, outro destino
Ou outra condenação!


[António Botto]

(caixa da felicidade, por Hélio Cunha)



sábado, 3 de março de 2012

Anseios

Meu doido coração aonde vais
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade
Meu pobre coração olha, cais!

Deixa-te estar quietinho!
 Não amais a doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge
Na paz da tua cela, a soluçar!...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 2 de março de 2012

Quando Eu For Pequeno

 Quando eu for pequeno, mãe
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe
nenhum de nós falará da morte
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena
lenço branco na mão com as iniciais bordadas
anunciando que vai voltar
 porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

[José Jorge Letria]

quinta-feira, 1 de março de 2012

Terror de Te Amar

Terror de te amar
 num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]