sexta-feira, 9 de março de 2012

Perdi os Meus Fantásticos Castelos


 Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel
A minha cota de aço, o meu corcel
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...

[Florbela Espanca]

Solidão

 
 A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram
desiludidos e tristes se separam
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...

[Rainer Maria Rilke]

quinta-feira, 8 de março de 2012

Algumas Reflexões Sobre a Mulher

 Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva
arrastando os seus mantos, na poeira das estrelas.
Animais sonâmbulos dormem nos rios, na raiz do pão.
Na vulva sombria é onde fazem o lume:
Ali têm casa.
Em segredo, escondem o latir lancinante dos seus cães.
Nos olhos, o relâmpago negro do frio.
Longamente bebem o silêncio nas próprias mãos.
O olhar desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.
Sobre si se debruçam
a escutar os passos do crepúsculo.
Despem-se ao espelho
para entrarem nas águas da sombra.
É quando dançam
 que todos os caminhos levam ao mar.
São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar, o branco da rosa.
Quando o galo canta…
Desprendem-se…para serem orvalho.

[Eugénio de Andrade]


A minha Homenagem neste dia a Todas as Mulheres



quarta-feira, 7 de março de 2012

Morrer de Amor é Assim

Quem morre de tempo certo
ao cabo de um certo tempo
é a rosa do deserto
que tem raízes no vento.

Qual a medida de um verso
que fale do meu amor?
Não me chega o universo
porque o meu verso é maior.

Morrer de amor é assim
como uma causa perdida.
Eu sei e falo por mim
vou morrer cheio de vida.

Digo-te adeus, vou-me embora
que os versos que eu te escrever
nunca os lerás, sei agora
que nunca aprendeste a ler.

Neste dia que se enquadra
no tempo que vai passar
termino mais esta quadra
feita ao gosto popular.

[Joaquim Pessoa]

terça-feira, 6 de março de 2012

Soneto de Contricção

 Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

[Vinicius de Moraes]