terça-feira, 13 de março de 2012

Poema de Amor para Uso Tópico

 Quero-te
 como se fosses
a presa indiferente
 a mais obscura das amantes.
 Quero o teu rosto
de brancos cansaços
 as tuas mãos que hesitam
 cada uma das palavras
que sem querer me deste.
 Quero que me lembres
 e esqueças
 como eu te lembro e esqueço:
 num fundo a preto e branco
 despida como a neve matinal
 se despe da noite, fria, luminosa…
voz incerta de rosa.

[Nuno Júdice]

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Morte, esse Lugar comum

 É trivial a morte e há muito se sabe
fazer  e muito a tempo:  o trivial.
Se não fui eu quem veio no jornal
foi uma tosse a menos na cidade...

A caminho do verme, uma beldade
não dirias assim, Gomes Leal?
vai ser coberta pela mesma cal
que tapa a mais intensa fealdade.

Um crocitar de corvo fica bem
neste anúncio de morte para alguém
que não vê n'alheia sorte a própria sorte...

Mas por que não dizer, com maior nojo
que um menino saiu do imenso bojo
de sua mãe, para esperar a morte?...

[Alexandre O'Neill]

domingo, 11 de março de 2012

S I N T O

Sinto
que nas minhas veias
 arde sangue
chama vermelha
 que vai cozendo
as minhas paixões
 no coração.

Mulheres, por favor
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

[Federico García Lorca]

sábado, 10 de março de 2012

V I D A

Vida:
sensualíssima mulher
 de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos
 na alucinação do «nunca mais».
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras na floresta milenária
 do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
a minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse
 fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo...
O vento da noite
 badala nos ramos
sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus
 e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
maldita selva, maldita selva
antes o deserto, a sede e a morte!

[Manuel da Fonseca]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Perdi os Meus Fantásticos Castelos


 Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel
A minha cota de aço, o meu corcel
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...

[Florbela Espanca]