quinta-feira, 22 de março de 2012

E de novo a armadilha dos abraços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

[Rosa Lobato de Faria]

Foto Alexandre Marques



quarta-feira, 21 de março de 2012

Esta Gente

 Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

Meu Camarada e Amigo

 Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

[José Carlos Ary dos Santos]

(Pablo Picasso. Mulheres Correndo na Praia)



terça-feira, 20 de março de 2012

Ternura

 Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
 seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos
 eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
 encontrem sem fatalidade, o olhar extático da aurora.

[Vinícius de Moraes]

segunda-feira, 19 de março de 2012

Poema Contíguo ao Ódio

Que gelado sopro nos agita do lado de dentro das ruas?
 Que rápida vertigem nos domina nesta agudíssima manhã?
 Este vento que nos queima estas veias mais quentes
 Estes longos minutos que sacodem o rosto
 Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
 Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
 Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
 Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
 Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
 Estes grandes traços negros de trânsito impedido

[João Rui de Sousa]



domingo, 18 de março de 2012

o suporte da música

 
o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher
 a pauta dos seus gestos tocando-se
ou dos seus olhares encontrando-se
 ou das suas vogais adivinhando-se abertas e recíprocas
ou dos seus obscuros sinais de entendimento
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência
dos seus ouvidos e do olfacto
 de tudo o que se ramifica entre os timbres os perfumes
 mas é também um ritmo interior
 uma parcela do cosmos
e eles sabem-no, perpassando por uns frágeis momentos
 concentrado num ponto minúsculo  intensamente luminoso
que a música, desvendando-se, desdobra
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

[Vasco Graça Moura]

sábado, 17 de março de 2012

Pergunto-te

 Pergunto-te
 onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu.
Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas
 aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto?
 Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias?
 E de cada pergunta minha
 vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos
 de quem pensa.

Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada
do silêncio da coisa irrespondida.

[Cecília Meireles]