domingo, 8 de abril de 2012

Quando eu me fôr

Quando eu me fôr
os caminhos continuarão andando...
E os meus sapatos também!
Porque os quartos, as casas que habitamos
Todas, todas as coisas que foram nossas na vida
Possuem igualmente os seus fantasmas próprios
Para alucinarem as nossas noites de insónia!

[Mário Quintana]

sábado, 7 de abril de 2012

ESTA É A CIDADE

Esta é a Cidade e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita
Esgueira-se, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!

São automóveis, lambretas
motos, vespas, bicicletas
carros, carrinhos, carretas
e gente, sempre mais gente
gente, gente, gente, gente
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

Uma circe peregrina
pedúnculo de vorticela
perpassa sob a janela
incandesce-me a retina.
Anda como sobre escolhos
irradiando fragrância.
Envolvo-a toda nos olhos
possuo-a mesmo à distância.

A multidão chama por mim.
Chama e reclama
que eu nela, sou princípio e fim.

Lá vou, lá vou.
Galgo os lanços da escada de roldão
e fluo, coloidalmente disperso
crepúsculo e onda, sem anverso nem reverso
fagocitado pela multidão.

[António Gedeão]


Ribeira do Porto  - Aguarela de Real Bordalo

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Conserto a palavra

Conserto a palavra
 com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a, dou-lhe um som
 para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro
 sobre a minha mesa
Reunida numa forma
 comparada à lâmpada
A um zumbido calado
 momentâneamente em enxame

Ela não se come
 como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma
 e restauro-a a partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a
 como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a

[Daniel Faria]



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sempre

 Ao contrário de ti
não tenho ciúmes.

Vem com um homem às costas
vem com cem homens nos teus cabelos
vem com mil homens entre os seios e os pés
vem como um rio cheio de afogados
que encontra o mar furioso
a espuma eterna, o tempo.

Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sózinhos
estaremos sempre tu e eu
sózinhos na terra
para começar a vida.

[Pablo Neruda]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Distância

 Não vás para tão longe!
Vem sentar-te aqui
 na chaise-longue ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe
Quero ver se ainda sabes olhar-me
 como d'antes e se nas tuas mãos acariciantes
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente, era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço, hesitas e depois
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente o meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
que além se avista
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista
E tu sempre mais longe!...

[Fernanda de Castro]


Pintura a óleo de Anita Malfatti
(Fernanda de Castro. 1922)