sábado, 24 de março de 2012

Volúpia

 No divino impudor da mocidade
Nesse êxtase pagão que vence a sorte
Num frémito vibrante de ansiedade
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 23 de março de 2012

A noite vem…

A noite vem buscar secretamente
através das dobras das cortinas
brilho de sol esquecido no teu cabelo.
Olha, nada mais quero que não seja
ter entre as minhas, as tuas mãos
 e ser tranquilo e bom todo cheio de paz.

Fazes-me crescer a alma que estilhaça
o dia-a-dia em cacos
 e assim ganha uma amplitude
 que é milagre teu:
Nos seus molhes de aurora
 vão morrer as primeiras ondas de infinidade

[Rainer Maria Rilke]

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eternidade

 Vens a mim pequeno
 como um deus
frágil como a terra
morto como o amor
falso como a luz
e eu recebo-te
para a invenção
 da minha grandeza
para rodeio
 da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo.
 Vem comigo.

[Jorge de Sena]

E de novo a armadilha dos abraços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

[Rosa Lobato de Faria]

Foto Alexandre Marques