segunda-feira, 26 de março de 2012

PAISAGEM

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.
Desejei-te encerrada num retrato
para te poder contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno desta praia.
E desejei: Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.
Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.

[David Mourão-Ferreira]

O Cerimonial das Mãos

Mãe
onde foi que deixaste a outra metade
a que anunciava o sol na turvação das noites
a que iluminava a sombra no cerimonial das mãos?
Em que côncavo de rochas buscava abrigo
essa outra metade que eu via projectada
para fora de mim como um sonho
 evadindo-se do círculo de medos
 em que a fúria se jogava?

Eu era gémeo de todos os assombros
e os meus segredos era com essa outra metade
que os partilhava à revelia das bocas
que em surdina me traçavam o destino.
Quanto de mim se perdia nessa metade
que me furtava o riso e me deixava a culpa
que me feria o ventre e me fustigava a pele?
Quanto de mim me flagelava
sem que eu lhe conhecesse morada ou nome?

Mãe
 eu pedia uma trégua ao vento
e um punhal à chuva e com ambos
 queria separar de mim a metade incandescente
que à beira dos meus gestos
ganhava altura de nuvem e fulgor de estrela.

Mãe
 eu vejo-me outro nesta cama
que guarda os instrumentos
 liquefeitos da insónia
e sei que não sou eu quem lá está
que não sou eu que lá quero estar.

[José Jorge Letria]

domingo, 25 de março de 2012

Faz-se Luz

Faz-se luz
pelo processo de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz
 mas no próprio seio dela
intensamente amantes, loucamente amadas
e espalham pelo chão
 braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico
 nos olhos do homem

Por outro lado
 a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos
 e na boca

[Mário Cesariny]

sábado, 24 de março de 2012

Volúpia

 No divino impudor da mocidade
Nesse êxtase pagão que vence a sorte
Num frémito vibrante de ansiedade
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

[Florbela Espanca]

sexta-feira, 23 de março de 2012

A noite vem…

A noite vem buscar secretamente
através das dobras das cortinas
brilho de sol esquecido no teu cabelo.
Olha, nada mais quero que não seja
ter entre as minhas, as tuas mãos
 e ser tranquilo e bom todo cheio de paz.

Fazes-me crescer a alma que estilhaça
o dia-a-dia em cacos
 e assim ganha uma amplitude
 que é milagre teu:
Nos seus molhes de aurora
 vão morrer as primeiras ondas de infinidade

[Rainer Maria Rilke]