sexta-feira, 6 de abril de 2012

Conserto a palavra

Conserto a palavra
 com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a, dou-lhe um som
 para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro
 sobre a minha mesa
Reunida numa forma
 comparada à lâmpada
A um zumbido calado
 momentâneamente em enxame

Ela não se come
 como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma
 e restauro-a a partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a
 como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a

[Daniel Faria]



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sempre

 Ao contrário de ti
não tenho ciúmes.

Vem com um homem às costas
vem com cem homens nos teus cabelos
vem com mil homens entre os seios e os pés
vem como um rio cheio de afogados
que encontra o mar furioso
a espuma eterna, o tempo.

Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sózinhos
estaremos sempre tu e eu
sózinhos na terra
para começar a vida.

[Pablo Neruda]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Distância

 Não vás para tão longe!
Vem sentar-te aqui
 na chaise-longue ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe
Quero ver se ainda sabes olhar-me
 como d'antes e se nas tuas mãos acariciantes
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente, era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço, hesitas e depois
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente o meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento
que além se avista
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista
E tu sempre mais longe!...

[Fernanda de Castro]


Pintura a óleo de Anita Malfatti
(Fernanda de Castro. 1922)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Amém

Hoje acabou-se-me a palavra
e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também!

A profusão do mundo, imensa
tem tudo, tudo  e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?

Fala-se com os homens
 com os santos, consigo, com Deus. . .
E ninguém entende
 o que se está contando
e a quem. . .

Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém.

[Cecília Meireles]