terça-feira, 17 de abril de 2012

De um Amor Morto

 De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto
 não fica nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo, agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto
 não deixa em nós
o seu retrato de infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Entre o Sono e Sonho

 Entre o sono e sonho
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens
Diversas mais além
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.

[Fernando Pessoa]

domingo, 15 de abril de 2012

DE TARDE

Naquele pique-nique de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela
E que, sem ter história nem grandezas
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico
Foste colher, sem imposturas tolas
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos
Nós acampámos, inda o Sol se via
E houve talhadas de melão, damascos
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

[Cesário Verde]

sábado, 14 de abril de 2012

Se fosses luz

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo:  a luz do dia!
Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água, música da terra
Serias água pura e sempre calma!
Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero meu amor, que sejas alma!

[António Botto]

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Assembleia dos Ratos

Um gato de nome Faro-Fino, fez tais estragos na rataria de uma casa velha que os sobreviventes, sem coragem para saírem das tocas, estavam quase a morrer de fome.
Tornando-se muitíssimo séria a situação, resolveram reunir-se em assembleia para o estudo da questão.
Aguardaram para isso, certa noite em que Faro-Fino andava pelos telhados, fazendo versos à lua.
- Penso, disse um deles, que o melhor meio de nos defendermos de Faro-Fino é atando-lhe um guizo ao pescoço, assim, quando ele se aproximar, o guizo denuncia-o e fugimos a tempo.
Palmas e bravos saudaram a luminosa ideia.
 O projeto foi aprovado por unanimidade, só votou contra um rato bastante casmurro, que pediu a palavra e disse:
- Está tudo muito certo. Mas quem vai amarrar o guizo ao pescoço de Faro-Fino?
Silêncio geral..., um desculpou-se por não saber dar nós, outro, porque não era tolo, todos, porque não tinham coragem.
E a assembleia dissolveu-se no meio de geral consternação.


[Jean de La Fontaine]

Jean de La Fontaine , morreu a 13 de Abril de 1695

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Elegia com uma variação romântica

As mulheres loucas arrumam os quartos
 Fazem as camas desfeitas
 empilham camisas e calças
abotoam os cintos do infinito
 prendem os laços da sombra.
 Com os seus olhos cegos
 Enfiam agulhas no buraco da vida
 cosem as feridas do amor que não tiveram
 cantam devagar a canção da idade fria.
 Dispo essas mulheres no meu poema
 espalho as suas roupas pelas cadeiras
do quarto, abro a cama onde as deito
 rasgo os pontos que acabaram de coser.
 O seu sexo - seco pelos ventos
 de uma inquietação nocturna
-humedece-me os dedos.
 Desfolho os dias de março
enquanto desfloro os seus lábios.
 Por vezes, as mulheres loucas
 abrem a porta da varanda
respiram o perfume
 das trepadeiras brancas da primavera
 desmaiam com o sol.

[Nuno Júdice]



Imagem: Marc Chagall

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade
Dispo a minha mortalha, o meu burel
E já não sou Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

                              [Florbela Espanca]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A palavra

A palavra é uma estátua submersa
um leopardo que estremece em escuros bosques
uma anémona sobre uma cabeleira.
Por vezes é uma estrela que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite
 cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada.
Rápida é a boca que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos
os cabelos ardentes e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

[António Ramos Rosa]