terça-feira, 24 de abril de 2012

E de Novo, Lisboa...

 E de novo, Lisboa, te remancho
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos  Lisboa, os dois, aqui
na terra onde nasceste e eu nasci?

 [Alexandre O'Neill]

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dúvida

Amor
a tua voz
e a minha sensação de vácuo
de liberdades paralelas
ontem
esquinas encontradas
no ângulo dos lábios

Amor
a tua lâmpada de nevoeiro
sulcado
manhãs de aves
súbitas
com noites inventadas
nada
é o teu rosto
insectos de vertigem
sem paisagem.

[Maria Teresa Horta]

domingo, 22 de abril de 2012

Noite de Sonhos Voada

Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca amordaçada noutra boca
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço consentido
nesta angústia renovada
de encerrar, fechar, esmagar
o reluzir de uma estrela num abraço
e a ternura deslumbrada
 a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...

[Manuel da Fonseca]

M E M Ó R I A

Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes
Em terras de Borba, com torres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra
Levou-o o Destino pra longe da terra.
Passaram os anos, a Borba voltou
Que linda menina que, um dia encontrou!
Que lindas fidalgas e que olhos castanhos!
E  um dia, na Igreja correram os banhos.
Mais tarde, debaixo dum signo mofino
Pela lua-nova, nasceu um menino.
Ó mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto
Que são virgens antes e depois do parto!
Num berço de prata, dormia deitado
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado
(E abria o menino seus olhos tão doces):
«Serás um Príncipe! mas antes... não fosses.»
Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.
Calcou as sandálias, tocou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Senhoras:
«Vou ali adiante, à Cova, em berlinda
António e já volto...» E não voltou ainda!
Vai o Esposo, vendo que ela não voltava
Vaí lá ter com ela, por lá se quedava.
Ó homem egrégio! de estirpe divina
De alma de bronze e coração de menina!
Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fora, por eles voltei.
E assim se criou um anjo, o Diabo, a lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!
Sempre é agradável ter um filho Virgílio
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio
Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses
Mas, tende cautela, não vos faça mal...
Que é o livro mais triste que há em Portugal!

[António Nobre]

sábado, 21 de abril de 2012

CINQUENTA ANOS DEPOIS


CARTA DO CANADÁ
Fernanda  Leitão

 
Participei da greve nacional de estudantes universitários,  começada em  Lisboa em 24 de Março de 1962,   lado a lado com  largos milhares de outros estudantes. A greve foi consequência da proibição, pelo governo de Salazar, das celebrações do Dia do Estudante. O aparato policial foi impressionante a cercar a Cidade Universitária. Perante o facto, Marcelo Caetano, então Reitor da Universidade Clássica de Lisboa, falou aos milhares de estudantes concentrados frente às Faculdades de Letras e Direito: verificava que, lamentavelmente, de novo o poder executivo pisava o poder legislativo e,visto isso, estavam todos  os estudantes convidados a jantar no restaurante Castanheira de Moura, ao Lumiar.  Ordeiramente, muitos estudantes dirigiram-se ao restaurante e, quando ali chegaram, foram violentamente espancados pela polícia de choque. Estava aberta a guerra entre academia e regime, que rapidamente alastrou a outras universidades do país. Como seria de esperar, surgiram líderes: Eurico Figueiredo, Jorge Sampaio, Victor Wengorovius, Joaquim Mestre, José Medeiros Ferreira e outros. O Prof. Lindley Cintra, por ser solidário com os estudantes, foi barbamente espancado mas não desistiu. Foi então que se ouviram as vozes de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Alegre. Nasceram as baladas de protesto.  A repressão foi brutal: foi a hora de (triste) glória do capitão Maltez e de polícias de uma aterradora boçalidade. Dali a poucos meses, muitos daqueles jovens eram mobilizados para a guerra de Angola e colocados nas linhas da frente, depois de umas recrutas que ficaram célebres pelo abuso e brutalidade. Teve então lugar uma emigração a salto, que foi uma verdadeira hemorragia para o país, pois o regime só tinha para oferecer a guerra em África ou a penúria em território europeu.
     Um ano antes, quando rebentou a guerra em Angola, um nutrido grupo de membros da Casa dos Estudantes do Império, de que fui a sócia 450, apareceu numa manifestação (de voluntários à força) em apoio a Salazar, e foi espancado com requintes de brutalidade pela GNR a cavalo porque resolveu acompanhar a palavra de ordem orquestrada pelos mentores do regime: Angola é Nossa. Ficámos a perceber que Angola não era nossa, era “deles”. E passámos a chamar à GNR a cavalo a “fracção imprópria”. Nos meses que se seguiram, ondas de estudantes ultramarinos rumaram ao exílio e radicalizaram a sua posição,o que redundou em perda para Portugal e para as colónias.
     Julgou-se, ingénuamente, que a revolução de 1974 traria o bom senso elementar de educar as forças policiais,  apelando à inteligência e ao facto de serem os seus elementos pessoas do Povo, tornando-os de exemplar civismo e fazendo deles pessoas compreendendo cada situação, de modo a saberem que a mão pesada é para criminosos e terroristas, a exemplo do  que se passa em  países civilizados. Enganámo-nos.
     No consulado de Cavaco Silva, o nunca por demais louvado Dias Loureiro, esse varão impoluto, que era então  ministro da Administração Interna, mandou a polícia de choque espancar emigrantes idos de países da Europa e do Canadá, por se terem manifestado em frente do Ministério da Justiça pelo facto de todas as suas poupanças terem sido roubadas pela Caixa Económica Faialense, cujos dirigentes eram barões do PSD.
     Volta e meia, em bairros problemáticos, as forças policiais carregam forte e feio sobre pessoas que desesperam de encontrar trabalho, escola, dignidade.
     E agora, no  Porto, no problemático bairro da Fontinha, de novo foi a brutalidade cega da polícia sobre um grupo que ocupou um imóvel abandonado e o transformou num espaço onde os moradores podiam ler, ver filmes, pintar, fazer teatro, cantar, aprender a ler e escrever, um espaço de generosidade e solidariedade. Um grupo como devia haver às centenas pelo país,  sobretudo nesta hora de incerteza e escassez, que congregava as pessoas pelo saber, o conhecimnto, e não pela violência. Depois de baterem à farta, as chamadas forças da ordem partiram portas e janelas, destruíram tudoo que encontraram naquele espaço, numa raiva irracional.
     Resumindo: para mal de todos, polícia incluída, a boçalidade continua.   
 Provavelmente porque é uma emanação de quem tutela e porque quem tutela tenta não sentir medo promovendo a violência.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Balada dos Aflitos

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas - dizeis - e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.

[Manuel Alegre]

Algumas Coisas

 A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo
também o silêncio daquele que fala se calará.

Quem fala destas coisas
 e de falar delas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade
saber é esquecer
 e esta é a sabedoria
 e o esquecimento.

[Manuel António Pina]

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Homem

 Inútil definir
 este animal aflito.
Nem palavras
nem cinzéis
nem acordes
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito
 a menos infinito.

[António Gedeão]

quarta-feira, 18 de abril de 2012

MEMÓRIA

Meu coração de lusitano antigo
bateu às portas de Toledo, a estranha.
Mais roto e ensanguentado que um mendigo.
só a saudade as passos lhe acompanha.

Pois a saudade ali me deu abrigo.
ao pé do Tejo que a Toledo banha.
Levava os dias a falar comigo
como um pastor com outro na montanha.

Em todo o mundo há terra portuguesa
desde que a alma a tenha na lembrança
e a sirva sempre com fervor igual.

Talvez por isso, em horas de tristeza
eu pude à sua amada semelhança
criar p'ra mim um novo Portugal!

[António Sardinha]


terça-feira, 17 de abril de 2012

De um Amor Morto

 De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto
 não fica nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo, agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto
 não deixa em nós
o seu retrato de infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

[Sophia de Mello Breyner Andresen]