sábado, 19 de maio de 2012

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei  a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

[Mia Couto]

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Poema de Amor para Uso Tópico


[Pintura a óleo sobre tela, Conceição Adão]

 Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes.
Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste.
 Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço:
 num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

[Nuno Júdice]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

M A R

Mar,  metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia
Que há no vasto clamor da maré cheia
Que nunca nenhum bem me satisfez.

E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez
Que após cada queda caminho para a vida
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.

E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo
É só porque as tuas ondas são puras

[Sophia de Mello Breyner Andresen ]  

terça-feira, 8 de maio de 2012

É Noite, Mãe

As folhas já começam a cobrir
o bosque mãe, do teu outono puro...
São tantas as palavras deste amor
que presas os meus lábios retiveram
pra colocar na tua face, mãe!...

Continuamente o bosque se define
em lividez de pântanos agora
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.
No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca
em cada latejar do vento pelos ramos
procura, seca, o teu perdão imenso...

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados
que uma qualquer manhã me ressuscite!...

[António Salvado]

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Castidade com que Abria as Coxas

 A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 6 de maio de 2012

Nona Sinfonia

 É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por Deus não basta. É mais preciso o Homem.

[José Carlos Ary dos Santos]

sábado, 5 de maio de 2012

Escrito numa ânfora grega

E o teu amor que espalha a tinta
Na minha tela da cor da sede
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.

Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo
Contigo a ver-me de um telhado
Altura própria para um suicídio.

Mas prometida a um olhar marujo
Na lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas, mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.

[Natália Correia]

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Litania

O teu rosto inclinado pelo vento
a feroz brancura dos teus dentes
as mãos, de certo modo irresponsáveis
e contudo sombrias e contudo transparentes

O triunfo cruel das tuas pernas
colunas em repouso se anoitece:
o peito raso claro, feito de água
a boca sossegada onde apetece

Navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor
as palavras mordendo a solidão
atravessadas de alegria e de terror

São a grande razão, a única razão.

[Eugénio de Andrade]

Saudades


Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci
Para mais doidamente me lembrar
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

                     [Florbela Espanca]

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Meditação Anciã


Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus



[Ruy Belo]

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Tempo Seca o Amor

 O tempo seca a beleza
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve
desúnido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco
vestígio do musgo humano
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque
não na terra, Amor-Perfeito
num tempo depois das almas.

[Cecília Meireles]