segunda-feira, 30 de abril de 2012

AS PALAVRAS PROIBIDAS


CARTA DO CANADÁ
Fernanda  Leitão

Quando assentei  praça no jornalismo, no século passado, a comunicação social era mantida,com trela curta e açaime, pela censura. Esta era uma coisa misteriosa, sinistra e caricata, personificada por uns coronéis tarimbeiros sobrados do 28 de Maio de 1926. Eram engraçados,os coronéis da censura. Um grupo de universitários que eu conheci, pontificado por um que veio a ser médico em Moçambique, resolveu editar uma revista, isto em Coimbra, para o que montou um elaborado plano de pega de cernelha à censura. Como o militar que naquela cidade chefiava a censura ia todos os dias tomar a bica à mesma hora, a rapaziada foi-se-lhe chegando,mansa e sonsa, numa conversa mole que encantava o tropa. Quando acharam que o bicho estava pronto para a pega, apareceram-lhe com as provas da revista para a censura. O coronel passou os olhos pela prosa, achou aquilo inocente como o chá de tília e assinou de cruz. A coisa ia andando neste remanso. A pouco e pouco, como quem não quer a coisa, eles começaram a meter umas poesias, daquelas em que verdade rima com liberdade, pão com revolução, e assim. E o tropa sempre a assinar de cruz.  Até que caíu o Carmo e a Trindade: o coronel foi questionado e apertado pela Pide por causa da revista dos rapazes. Quando eles se abeiraram, prazenteiros, da mesa do tropa, este atirou-lhes à cara: “Traidores, falsos,  malandros, comunistas, comigo não brincam mais. Ficam sabendo que nunca mais deixo passar uma poesia. Nem que seja assinada pelo Salazar”.  Ardeu a tenda literária aos académicos que, entretanto, tinham  bebido uns litros de café à conta do militar. 
     Os coronéis da censura em Lisboa também eram desta finura de inteligência. Um dia fizeram uma lista de palavras proibidas que mandaram entregar nas redacções: prostituta, aborto, suicídio, manifestação, liberdade e outras que já não lembro.  Eu trabalhava numa agência noticiosa estrangeira, com delegação em Lisboa,  cujo  chefe colocou logo a lista numa parede, com a mesma rapidez  que punha nos pedidos de notícias no estrangeiro que Mário Soares lhe fazia por carta, entregue em mão, num alvoroço que deixava todos a sonhar com o golpe de estado  para essa noite. Eu tenho montes de defeitos, mas gosto de ajudar: acrescentei na lista as palavras estudante, repressão, nacionalista africano. Porque, recordo, nas universidades e nas colónias o tempo era de bumba no toutiço. 
     Nos arraiais da comunicação desejava-se  o fim da censura como quem deseja o fim do cancro. Foi um entusiasmo quando os deputados da ala liberal, liderados por Francisco Sá Carneiro, apresentaram  um projecto de Lei de Imprensa na Assembleia Nacional, no consulado de Marcelo Caetano. Uma noite, no restaurante Rina, ao Bairro Alto, poiso certo de jornalistas e radialistas, a discussão em torno do assunto foi de tal ordem que, já passava das 23 horas, a patroa nos veio pedir, naquele seu jeito meigo, se podíamos ir conversar para outro lado que ela tinha de levantar-se muito cedo para ir à  Ribeira fazer as compras. Levantámos ferro e ancorámos numa leitaria, daquelas que estão abertas toda a noite, e o berreiro continuou. Estava connosco José Carlos Ary dos Santos que nos tinha acompanhado ao jantar. No meio daquele temporal de argumentos, Ary dos Santos levantou-se para ir aos lavabos, ia andando e sempre a voltar-se para traz, o corpanzil imenso,  o vozeirão que estremecia tudo, a dizer de sua justiça, quando o tasqueiro o chamou, aflito: “Oh sor Ary, por aí não, aí é para senhoras”.  O poeta agarrou a rábula no ar, pôs a mão na anca e declamou: “E eu sou alguma galdéria”?  O riso apagou  o incêndio.
     Como podem calcular, o 25 de Abril foi para nós, em termos de liberdade de expressão, um maná. Quando vi o Manecas das Intentas (Manuel Serra), à janela da  censura, deitando para a Rua da Misericórdia pastas e papéis soltos, gritei-lhe cá de baixo:”Pára com isso, burro!  Esses papéis são a memória do povo”. Sempre  o guardar dessa memória  me pareceu obrigatório. E é por nem sempre ter havido esse cuidado que, como  num aviso de muito mau prenúncio, registo as palavras proibidas que este governo tem  feito saber: estado social, subsídio de férias,subsídio de Natal, feriados com grande significado histórico, empobrecer,  cortes desiguais, obediência a Merkel, desobediência civil  à troika,escola pública, carnaval,  etc. etc.  
     Gerações sofreram, choraram lágrimas de sangue, encheram as prisões e os exílios, numa luta desigual, para o povo alcançar os direitos que há muitos anos lhe eram devidos.  Não podemos consentir no que se está a passar e no que se está  a preparar.


domingo, 29 de abril de 2012

O Solitário

 Como alguém que por mares desconhecidos viajou
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo
tão desabitado talvez como uma lua
mas eles não deixam um único pensamento só
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas
na sua vasta pátria são feras
aqui sustém a respiração, por vergonha.

[Rainer Maria Rilke]

sábado, 28 de abril de 2012

O Amor Que Sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
sabes o teu nome
sombra necessária
de um Sol que não vejo
onde cabe o pária
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere
chame-se mulher
onda de veludo
pátria mal-amada
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

[José Gomes-Ferreira]

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares

Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares
 E dos seus nomes, dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E  sobre a cómoda, num espelho mais antigo
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida, como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

[Maria do Rosário Pedreira]

Lamento do Poeta Objectivo

Anda-me o amor tomando a própria vida
como se  amando, eu existisse mais.
E leva-me o Destino em voz traída
como se houvera encontros desiguais.
A multidão me cerca  e  renascida
já dela terei fome de sinais.
E  mal a noite se demora ardida
o medo e a solidão me esfriam tais
as cinzas desse amor que sacrifico.
Não é futura a só miséria.
 A queixa também não é
 e apenas acontece no vácuo imenso
 que este amor me deixa quando maior
 quando de si mais rico
 se dá de mundo em mundo
 e lá me esquece.

[Jorge de Sena]

quinta-feira, 26 de abril de 2012

ESCADA SEM CORRIMÃO

É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos
Mais estragados estão
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

[David Mourão-Ferreira]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um Pouco Mais de Nós

 Podes dar uma centelha de lua
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço
podes dar em suma, com emoção
tudo aquilo que, em silêncio
te segreda o coração
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga
sob a forma de poema ou de cantiga
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso
e sendo tudo isso serás ainda mais
anónimo, pleno e livre
nau sempre aparelhada para deixar o cais
porque o que conta, vendo bem
é dar sempre um pouco mais
sem factura, sem fama, sem horário
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

[José Jorge Letria]

terça-feira, 24 de abril de 2012

E de Novo, Lisboa...

 E de novo, Lisboa, te remancho
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos  Lisboa, os dois, aqui
na terra onde nasceste e eu nasci?

 [Alexandre O'Neill]