terça-feira, 22 de maio de 2012

Casa branca

Casa branca em frente ao mar enorme
Com o teu jardim de areia e flocos marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto calor
 de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.



[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese:
o amor que se despeja no copo da vida
 até meio, como se o pudéssemos beber de um trago.
 No fundo, como o vinho turvo
 deixa um gosto amargo na boca.
 Pergunto onde está a transparência do vidro
 a pureza do líquido inicial
 a energia de quem procura esvaziar a garrafa
 e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos
 a mesa da alma suja de restos
 palavras espalhadas num cansaço de sentidos.
Volto,então, à primeira hipótese: O amor.
 Mas sem o gastar de uma vez
esperando que o tempo encha o copo até cima
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja  através dele, o teu rosto inteiro.

[Nuno Júdice]

Quem é que Abraça o meu Corpo


 Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente, ao meu ouvido?

És tu, Senhor dos meus olhos
E sempre no meu sentido.

[António Botto]

domingo, 20 de maio de 2012

Canção grata

Por tudo o que me deste
Inquietação, cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

[Florbela Espanca]

sábado, 19 de maio de 2012

O horizonte das palavras

Sem direcção, sem caminho
escrevo esta página que não tem alma dentro.
Se conseguir chegar à substância de um muro
acenderei a lâmpada de pedra na montanha.
E sem apoio penetro nos interstícios fugidios
ou enuncio as simples reiterações da terra
as palavras que se tornam calhaus na boca
 ou nos meus passos.
Tentarei construir a consistência num adágio
de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.
E na substância entra a mão, o balbucio branco
de uma língua espessa, a madeira, as abelhas
um organismo verde aberto sobre o mar
as teclas do verão, as indústrias da água.
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias
 nas suas pontes de música visual:
 o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.



[António Ramos Rosa]

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei  a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

[Mia Couto]

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Poema de Amor para Uso Tópico


[Pintura a óleo sobre tela, Conceição Adão]

 Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes.
Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste.
 Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço:
 num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

[Nuno Júdice]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

M A R

Mar,  metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia
Que há no vasto clamor da maré cheia
Que nunca nenhum bem me satisfez.

E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez
Que após cada queda caminho para a vida
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.

E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo
É só porque as tuas ondas são puras

[Sophia de Mello Breyner Andresen ]  

terça-feira, 8 de maio de 2012

É Noite, Mãe

As folhas já começam a cobrir
o bosque mãe, do teu outono puro...
São tantas as palavras deste amor
que presas os meus lábios retiveram
pra colocar na tua face, mãe!...

Continuamente o bosque se define
em lividez de pântanos agora
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.
No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca
em cada latejar do vento pelos ramos
procura, seca, o teu perdão imenso...

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados
que uma qualquer manhã me ressuscite!...

[António Salvado]

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Castidade com que Abria as Coxas

 A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 6 de maio de 2012

Nona Sinfonia

 É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por Deus não basta. É mais preciso o Homem.

[José Carlos Ary dos Santos]