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domingo, 3 de junho de 2012

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo demoraste
 tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração



[Al Berto]

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Morte é Um Relâmpago

a morte é um relâmpago suspenso sobre o coração
chega dum frémito crepuscular da memória
assim é o branco do seu retrato
calcinado coral...os olhos de escamas entumescidas
o osso enterrado no rosto...o zinabre das mãos
os pés tentaculares semelhantes aos enormes polvos
dos fantásticos manuais de zoologia
    
dormirei na vegetação fosforosa das águas
todas estas horas em que te afastas de mim
não te esqueças...escreve sempre
para que os dias se prolonguem
onde teu corpo é precioso alimento do meu

suspenso na altura tenebrosa das gáveas...viajo
para viver onde os sinais de vida não magoem
e os pássaros sejam pressentimentos de felicidade
flutuando onde se derrama o nocturno plâncton
pela boca luminosa das galáxias

e da nossa passagem permanecerá
o deslumbrante rumor dos fogos sobre o mar

[Al Berto]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

amas ou finges morrer

Pernoitas em mim
 e se por acaso te toco a memória...
 amas ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

[Al Berto]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Encomenda Postal

destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta

[Al Berto]

(Al Berto faria hoje 64 anos)

domingo, 18 de setembro de 2011

Há-de flutuar uma cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

[Al Berto]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dizem que a paixão o conheceu



dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

[Al Berto]

terça-feira, 31 de maio de 2011

E ao anoitecer

Foto : Nelson Cachola



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio e a difícil arte da melancolia

[Al  Berto]

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Arrumo Papéis Escritos Para o Último Livro

arrumo papéis escritos para o último livro
com um tigre prodigioso cravado no ombro

mantenho os dedos sujos de tinta há vários dias
e sempre que não consigo escrever fumo devagar
encontro o tempo necessário para não fazer nada

de meu corpo corroído pela febre ergo-me
atravesso a sala
desligo a televisão que nunca vejo

junto à janela aberta
a mão tece
a camisola em lã mal cardada

um vestígio de dor envolve-me
que acontecerá à minha sombra?
terei tempo de assobiar à morte?
terei tempo
de levar comigo a roupa de que mais gosto?
que horas são? além
perto da mãe

talvez não seja só febre isto que me assola
pode ser um indício de peste
qualquer mal que alastra pela mansa noite
e contamina os dias fechados na desolação

não consigo imaginar que se morre sozinho
sem sombra sem doenças sem sangue
aterroriza-me pensar que não poderei levar
a camisola tecida pela mãe
na interminável luminosidade do mar


[Al Berto]