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terça-feira, 19 de junho de 2012

Entre os teus lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


[Entre os teus lábios ]

quarta-feira, 23 de maio de 2012

As palavras

São como cristal
as palavras.
Algumas, um punhal
um incêndio.
Outras
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:

barcos ou beijos
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes
leves.

Tecidas são de luz
e são a noite.

E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim
cruéis, desfeitas
nas suas conchas puras?

[Eugénio de Andrade]

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Litania

O teu rosto inclinado pelo vento
a feroz brancura dos teus dentes
as mãos, de certo modo irresponsáveis
e contudo sombrias e contudo transparentes

O triunfo cruel das tuas pernas
colunas em repouso se anoitece:
o peito raso claro, feito de água
a boca sossegada onde apetece

Navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor
as palavras mordendo a solidão
atravessadas de alegria e de terror

São a grande razão, a única razão.

[Eugénio de Andrade]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto
        encostado ao rosto dos navios. 
        Sem nenhum destino flutuam nas cidades
        partem no vento, regressam nos rios. 

        Na areia branca, onde o tempo começa
        uma criança passa de costas para o mar.
        Anoitece, não há dúvida, anoitece. 
        É preciso partir, é preciso ficar. 

        Os hospitais cobrem-se de cinza.
        Ondas de sombra quebram nas esquinas.
        Amo-te... E abrem-se janelas
        mostrando a brancura das cortinas.

        As palavras que te envio são interditas
        Até  meu amor, pelo halo das searas
        se alguma regressasse, nem já reconhecia
        o teu nome nas minhas curvas claras.

        Dói-me esta água, este ar que se respira
        dói-me esta solidão de pedra escura
        e estas mãos noturnas onde aperto 
        os meus dias quebrados na cintura. 

        E a noite cresce apaixonadamente.
        Nas suas margens vivas, desenhadas
        cada homem tem apenas para dar
        um horizonte de cidades bombardeadas. 

[Eugénio de Andrade]

quinta-feira, 8 de março de 2012

Algumas Reflexões Sobre a Mulher

 Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva
arrastando os seus mantos, na poeira das estrelas.
Animais sonâmbulos dormem nos rios, na raiz do pão.
Na vulva sombria é onde fazem o lume:
Ali têm casa.
Em segredo, escondem o latir lancinante dos seus cães.
Nos olhos, o relâmpago negro do frio.
Longamente bebem o silêncio nas próprias mãos.
O olhar desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.
Sobre si se debruçam
a escutar os passos do crepúsculo.
Despem-se ao espelho
para entrarem nas águas da sombra.
É quando dançam
 que todos os caminhos levam ao mar.
São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar, o branco da rosa.
Quando o galo canta…
Desprendem-se…para serem orvalho.

[Eugénio de Andrade]


A minha Homenagem neste dia a Todas as Mulheres



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As Frágeis Hastes do Amor

 Não voltarei à fonte dos teus flancos
ao fogo espesso do verão
a escorrer infatigável
dos espelhos, não voltarei.
Não voltarei ao leito breve
onde quebrámos uma a uma
todas as frágeis hastes do amor.
Eis o outono: cresce a prumo.
Anoitecidas águas
em febre em fúria em fogo
arrastam-me para o fundo.

[Eugénio de Andrade]


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lábios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume
na luz queimada
da pupila mais azul

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas
no alto e navegável
golfo do desejo

onde o furor habita
crispado de agulhas
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

[Eugénio de Andrade]


“o beijo” de Gustav klimt